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Ciência

O fungo descoberto no Brasil que lembra histórias de zumbis — e surpreendeu cientistas do mundo todo

Uma expedição na Mata Atlântica revelou um organismo raro, de aparência intrigante e comportamento extremo. A descoberta chamou atenção internacional e reacendeu debates sobre um universo quase invisível da natureza.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Escondido sob folhas, raízes e camadas de solo da Mata Atlântica, um organismo quase imperceptível passou milhares de anos longe dos holofotes. Até que uma expedição científica resolveu olhar com mais atenção. O resultado foi a identificação de uma nova espécie de fungo com um modo de vida tão peculiar que rapidamente ganhou um apelido popular. O achado não apenas ampliou o conhecimento sobre a biodiversidade brasileira, como também despertou interesse global.

Um achado inesperado no coração da Mata Atlântica

O fungo descoberto no Brasil que lembra histórias de zumbis — e surpreendeu cientistas do mundo todo
© https://x.com/biologia_braba

A descoberta ocorreu em uma reserva florestal de Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro, durante uma expedição dedicada a catalogar espécies pouco conhecidas. No chão da floresta, pesquisadores identificaram uma pequena estrutura arroxeada emergindo do solo. À primeira vista, parecia apenas mais um detalhe da vegetação, mas aquela “ponta” escondia algo muito maior.

Ao escavar cuidadosamente a área, os cientistas perceberam que se tratava de um fungo que havia infectado uma aranha de alçapão — um artrópode conhecido por construir armadilhas subterrâneas com uma espécie de “porta” para capturar presas. A aranha já estava morta, e o fungo utilizava seu corpo como base para se reproduzir.

Batizada de Purpureocillium atlanticum, a nova espécie recebeu o nome em referência à coloração púrpura e ao bioma onde foi encontrada. O impacto da descoberta foi tão significativo que ela entrou para a lista das dez descrições de novas plantas ou fungos mais importantes de 2025, elaborada por um dos jardins botânicos mais respeitados do mundo.

Como funciona o chamado “fungo zumbi”

O apelido popular pode soar exagerado, mas descreve bem o comportamento do organismo. O fungo libera esporos que, ao entrarem em contato com a aranha, perfuram seu exoesqueleto. A partir daí, as células do fungo invadem a hemolinfa — o equivalente ao “sangue” do artrópode — e passam a se multiplicar rapidamente.

Durante esse processo, o fungo libera substâncias capazes de neutralizar o sistema imunológico do hospedeiro. Aos poucos, o corpo da aranha é totalmente tomado, até que ela morre. Em seguida, o fungo desenvolve o corpo de frutificação, estrutura responsável por espalhar novos esporos no ambiente e garantir a continuidade da espécie.

Apesar das comparações frequentes com cenários de ficção, esse comportamento é restrito a determinados grupos de artrópodes e não representa risco conhecido para humanos ou outros animais.

Tecnologia no campo revela espécies ocultas

Um dos fatores decisivos para a identificação precisa do Purpureocillium atlanticum foi o uso de uma tecnologia relativamente nova: o sequenciamento genético portátil. Com um equipamento compacto, os pesquisadores conseguiram analisar o material genético do fungo ainda no local da descoberta.

Esse detalhe faz toda a diferença. Tecidos frescos aumentam a qualidade das sequências obtidas, permitindo comparações mais confiáveis com outras espécies conhecidas. Foi assim que os cientistas perceberam que fungos antes agrupados sob um mesmo nome, encontrados em países como Japão, Estados Unidos e Tailândia, na verdade pertencem a espécies distintas.

A conclusão foi que o que se acreditava ser uma única espécie é, na realidade, um complexo formado por vários fungos diferentes — entre eles, o recém-descoberto na Mata Atlântica.

A fascinação popular pelos “fungos zumbi”

O interesse do público por esse tipo de organismo não surgiu agora. Documentários e produções audiovisuais já haviam mostrado fungos capazes de infectar insetos e influenciar seu comportamento. Mais recentemente, esse fascínio foi amplificado pela cultura pop, especialmente por histórias que exploram cenários pós-apocalípticos.

Na vida real, algumas espécies realmente conseguem interferir no sistema nervoso de insetos, levando-os a se deslocar para locais mais altos antes de morrer, o que facilita a dispersão dos esporos. No caso do Purpureocillium atlanticum, no entanto, o comportamento é diferente: a aranha foi encontrada enterrada, e o fungo cresceu em direção à superfície do solo, atravessando folhas e terra.

Essa diferença mostra como o mundo dos fungos é mais diverso e complexo do que muitas narrativas sugerem.

Um universo pouco conhecido e cheio de potencial

Estima-se que existam pelo menos 2,5 milhões de espécies de fungos no planeta — e que apenas cerca de 10% delas tenham sido descritas pela ciência. Isso significa que a maior parte desse universo permanece inexplorada.

Esse desconhecimento não é apenas uma curiosidade acadêmica. Fungos competem constantemente com bactérias, insetos e outros microrganismos, o que os leva a produzir compostos químicos potentes para sobreviver. Muitos antibióticos e medicamentos já conhecidos surgiram justamente a partir dessas substâncias.

Com as mudanças climáticas e a busca por soluções mais sustentáveis, compreender essa diversidade se torna ainda mais estratégico. Novas espécies podem esconder respostas para desafios futuros na saúde, na agricultura e na indústria.

A descoberta do Purpureocillium atlanticum reforça uma mensagem clara: mesmo em ecossistemas já estudados, como a Mata Atlântica, ainda há muito a ser revelado — e cada nova espécie pode mudar a forma como entendemos a vida ao nosso redor.

[Fonte: BBC]

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