Em meio a crescentes desafios climáticos e tensões geopolíticas, os Estados Unidos estão apostando alto em uma nova geração de energia nuclear. No coração dessa aposta está um combustível inovador, construído não em barras, mas em pequenas esferas altamente resistentes. Produzidas por uma empresa privada em colaboração com um laboratório nacional, essas estruturas prometem inaugurar uma nova era energética — e a corrida já começou.
O núcleo da transformação: o combustível TRISO
Em Oak Ridge, Tennessee, a empresa X-energy, com apoio do Laboratório Nacional de Oak Ridge, está produzindo um combustível nuclear que se destaca tanto pela sua segurança quanto pela sua eficiência. Chamadas de esferas TRISO, essas unidades contêm milhares de partículas de urânio enriquecido, cada uma encapsulada em várias camadas de carbono e grafite. O resultado: um combustível altamente resistente e estável.
O Departamento de Energia dos EUA classificou o TRISO como o “combustível nuclear mais robusto do mundo”. Ele suporta temperaturas extremas — até 1.800 °C — e é projetado para impedir qualquer vazamento de material radioativo, mesmo em situações críticas.
Ao contrário das tradicionais barras de combustível, as esferas TRISO podem ser reutilizadas em reatores de alta temperatura resfriados a gás por até seis ciclos. Esses reatores, atualmente em desenvolvimento pela própria X-energy, representam uma nova geração de usinas nucleares muito mais seguras e eficientes.

Produção em escala e independência estratégica
A meta é ambiciosa: até 2028, uma única fábrica poderá produzir combustível suficiente para abastecer 11 reatores. E uma segunda planta, prevista para 2029, multiplicará essa capacidade por quatro.
Mas o projeto vai além da eficiência energética. Ele responde também a uma necessidade geopolítica. Hoje, apenas China e Rússia produzem em larga escala o urânio de baixo enriquecimento e alto ensaio usado por esses reatores. Os EUA querem romper essa dependência externa.
Por isso, X-energy, com apoio do Departamento de Energia e de empresas como Amazon, está liderando um movimento para reindustrializar o setor nuclear americano. Sua solicitação à Comissão Reguladora Nuclear para construir uma nova instalação é a primeira do tipo em mais de 50 anos — um marco histórico.
Uma transformação, não apenas uma retomada
Apesar de críticas sobre os altos custos dos reatores de nova geração, os defensores do TRISO não veem isso como um simples renascimento da energia nuclear. Para eles, trata-se de uma transformação completa, que começa com uma cápsula do tamanho de uma bola — mas com o potencial de mudar todo o panorama energético dos Estados Unidos.