Os painéis solares tomaram conta do Brasil. Estão nas casas, nos comércios, nas fazendas e até em escolas públicas. Em apenas uma década, o país saltou de 600 sistemas solares para quase 4 milhões — um crescimento de mais de 6.000 vezes. Hoje, 99,8% dos municípios brasileiros têm pelo menos uma instalação fotovoltaica. Mas essa revolução energética, celebrada como símbolo de sustentabilidade, está trazendo consequências que poucos imaginaram.
Quando energia demais vira problema

Os números impressionam: a chamada micro e minigeração distribuída (MMGD) — energia produzida por consumidores e injetada na rede — já representa 18% da capacidade elétrica do país, o equivalente a três usinas de Itaipu. E até 2029, serão quase quatro Itaipus e meia, segundo o Operador Nacional do Sistema (ONS).
Mas há um lado menos brilhante nessa história. A expansão acelerada da energia solar está pressionando o sistema elétrico e aumentando a conta de quem não tem painéis em casa. Isso porque o incentivo que tornou a instalação vantajosa — o desconto na tarifa de uso da rede elétrica (TUSD) — é pago indiretamente pelos demais consumidores. Em outras palavras: quem não tem painel ajuda a bancar quem tem.
O sol generoso demais
O incentivo começou em 2012, com uma resolução da Aneel que criou o sistema de “créditos solares”. Quem gera mais energia do que consome durante o dia “empresta” o excedente à rede e usa os créditos à noite, sem pagar pelo uso da infraestrutura. Era uma forma de estimular um mercado nascente — e funcionou bem demais.
A explosão veio em 2015, quando uma nova regra permitiu cooperativas e consórcios solares. Isso abriu espaço para empresas venderem “assinaturas” de energia subsidiada, muitas vezes sem o consumidor nem ter um painel. Assim, a lógica do autoconsumo virou negócio, distorcendo o mercado. Como resume o ex-diretor da EPE Amilcar Guerreiro: “Se alguém está pagando menos, vai sobrar para alguém pagar mais.”
O governo tentou corrigir o rumo com o Marco Legal da Geração Distribuída (Lei 14.300/2022), que reduz gradualmente os subsídios até 2029. Mas quem instalou os painéis antes de 2023 continua com o benefício total até 2045. Resultado: uma corrida para aproveitar o “sol grátis” antes que a janela fechasse.
Os números falam por si: os subsídios saltaram de R$ 2,8 bilhões em 2022 para R$ 11,6 bilhões em 2024, e já passam de R$ 10 bilhões em 2025 — tudo pago na conta de luz dos brasileiros.
O paradoxo da energia solar
Com tanto painel gerando energia, o ONS enfrenta um novo dilema: há momentos do dia em que o país produz mais eletricidade do que consegue consumir. O pico solar ocorre entre 10h e 14h, quando a demanda cai. E, diferente das hidrelétricas, o ONS não pode desligar os painéis instalados nos telhados.
Cada sistema injeta eletricidade de forma independente, sem coordenação central. Como a energia não pode ser estocada, o excesso ameaça o equilíbrio da rede. No Dia dos Pais de 2024, por exemplo, o ONS precisou cortar 17,5 gigawatts de geração de outras fontes — o equivalente a desligar várias usinas — para evitar um colapso.
Esse tipo de corte, chamado curtailment, virou um pesadelo para o setor elétrico. Usinas eólicas e solares centralizadas, que também receberam subsídios bilionários, ficam paradas, gerando prejuízos milionários.
O setor dividido
Para Carlos Evangelista, presidente da Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD), o problema é mais político do que técnico. “As distribuidoras e os grandes geradores veem a geração distribuída como ameaça. O consumidor está deixando de comprar energia deles”, diz.
Já para Paulo Pedrosa, presidente da Abrace — que representa as grandes indústrias consumidoras —, a crise mostra um setor “capturado por privilégios”. “Todo mundo busca vantagem. No fim, a conta sobra para o consumidor comum.”
Entre os dois lados, o ONS tenta equilibrar o sistema. Uma das soluções em estudo é o leilão de capacidade, que paga mais a quem puder garantir energia firme nos momentos críticos, como hidrelétricas reversíveis e baterias de larga escala. Outra medida seria permitir cortes coordenados também em pequenas usinas, ampliando a flexibilidade da rede.
A conta da luz do sol
O avanço da energia solar é inegavelmente positivo — reduziu a pressão sobre o sistema e impulsionou empregos e tecnologia. Mas o modelo de incentivos criado há uma década virou insustentável. O país precisa encontrar um novo equilíbrio entre inovação e justiça tarifária, antes que a conta — literalmente — estoure.
O sol continua brilhando para o Brasil. Mas, se nada mudar, a energia mais limpa pode acabar pesando no bolso de quem menos pode pagar.
[Fonte: Invest news]