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Tecnologia

O lado sombrio do sol: por que o boom dos painéis solares virou dor de cabeça no sistema elétrico

O Brasil vive uma revolução solar: milhões de telhados cobertos de painéis e bilhões investidos em energia limpa. Mas por trás do sucesso, há um problema crescente — subsídios bilionários, excesso de energia e um sistema elétrico à beira do colapso em dias de sol. Entenda o que está em jogo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Os painéis solares tomaram conta do Brasil. Estão nas casas, nos comércios, nas fazendas e até em escolas públicas. Em apenas uma década, o país saltou de 600 sistemas solares para quase 4 milhões — um crescimento de mais de 6.000 vezes. Hoje, 99,8% dos municípios brasileiros têm pelo menos uma instalação fotovoltaica. Mas essa revolução energética, celebrada como símbolo de sustentabilidade, está trazendo consequências que poucos imaginaram.

Quando energia demais vira problema

O lado sombrio do sol: por que o boom dos painéis solares virou dor de cabeça no sistema elétrico
© Pexels

Os números impressionam: a chamada micro e minigeração distribuída (MMGD) — energia produzida por consumidores e injetada na rede — já representa 18% da capacidade elétrica do país, o equivalente a três usinas de Itaipu. E até 2029, serão quase quatro Itaipus e meia, segundo o Operador Nacional do Sistema (ONS).

Mas há um lado menos brilhante nessa história. A expansão acelerada da energia solar está pressionando o sistema elétrico e aumentando a conta de quem não tem painéis em casa. Isso porque o incentivo que tornou a instalação vantajosa — o desconto na tarifa de uso da rede elétrica (TUSD) — é pago indiretamente pelos demais consumidores. Em outras palavras: quem não tem painel ajuda a bancar quem tem.

O sol generoso demais

O incentivo começou em 2012, com uma resolução da Aneel que criou o sistema de “créditos solares”. Quem gera mais energia do que consome durante o dia “empresta” o excedente à rede e usa os créditos à noite, sem pagar pelo uso da infraestrutura. Era uma forma de estimular um mercado nascente — e funcionou bem demais.

A explosão veio em 2015, quando uma nova regra permitiu cooperativas e consórcios solares. Isso abriu espaço para empresas venderem “assinaturas” de energia subsidiada, muitas vezes sem o consumidor nem ter um painel. Assim, a lógica do autoconsumo virou negócio, distorcendo o mercado. Como resume o ex-diretor da EPE Amilcar Guerreiro: “Se alguém está pagando menos, vai sobrar para alguém pagar mais.”

O governo tentou corrigir o rumo com o Marco Legal da Geração Distribuída (Lei 14.300/2022), que reduz gradualmente os subsídios até 2029. Mas quem instalou os painéis antes de 2023 continua com o benefício total até 2045. Resultado: uma corrida para aproveitar o “sol grátis” antes que a janela fechasse.

Os números falam por si: os subsídios saltaram de R$ 2,8 bilhões em 2022 para R$ 11,6 bilhões em 2024, e já passam de R$ 10 bilhões em 2025 — tudo pago na conta de luz dos brasileiros.

O paradoxo da energia solar

Com tanto painel gerando energia, o ONS enfrenta um novo dilema: há momentos do dia em que o país produz mais eletricidade do que consegue consumir. O pico solar ocorre entre 10h e 14h, quando a demanda cai. E, diferente das hidrelétricas, o ONS não pode desligar os painéis instalados nos telhados.

Cada sistema injeta eletricidade de forma independente, sem coordenação central. Como a energia não pode ser estocada, o excesso ameaça o equilíbrio da rede. No Dia dos Pais de 2024, por exemplo, o ONS precisou cortar 17,5 gigawatts de geração de outras fontes — o equivalente a desligar várias usinas — para evitar um colapso.

Esse tipo de corte, chamado curtailment, virou um pesadelo para o setor elétrico. Usinas eólicas e solares centralizadas, que também receberam subsídios bilionários, ficam paradas, gerando prejuízos milionários.

O setor dividido

Para Carlos Evangelista, presidente da Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD), o problema é mais político do que técnico. “As distribuidoras e os grandes geradores veem a geração distribuída como ameaça. O consumidor está deixando de comprar energia deles”, diz.

Já para Paulo Pedrosa, presidente da Abrace — que representa as grandes indústrias consumidoras —, a crise mostra um setor “capturado por privilégios”. “Todo mundo busca vantagem. No fim, a conta sobra para o consumidor comum.”

Entre os dois lados, o ONS tenta equilibrar o sistema. Uma das soluções em estudo é o leilão de capacidade, que paga mais a quem puder garantir energia firme nos momentos críticos, como hidrelétricas reversíveis e baterias de larga escala. Outra medida seria permitir cortes coordenados também em pequenas usinas, ampliando a flexibilidade da rede.

A conta da luz do sol

O avanço da energia solar é inegavelmente positivo — reduziu a pressão sobre o sistema e impulsionou empregos e tecnologia. Mas o modelo de incentivos criado há uma década virou insustentável. O país precisa encontrar um novo equilíbrio entre inovação e justiça tarifária, antes que a conta — literalmente — estoure.

O sol continua brilhando para o Brasil. Mas, se nada mudar, a energia mais limpa pode acabar pesando no bolso de quem menos pode pagar.

[Fonte: Invest news]

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