O YouTube se tornou uma das plataformas mais assistidas do mundo, mas seu crescimento tem sido impulsionado de forma inesperada: pela TV. A versão para dispositivos móveis está enfrentando desafios, enquanto a interface para telas grandes se aproxima de um verdadeiro serviço de streaming. Será que o YouTube está errando ao tentar se parecer mais com o TikTok? E o que ele pode aprender com a Netflix?
A Ascensão do YouTube na TV
De acordo com a última carta anual do CEO do YouTube, Neal Mohan, mais pessoas assistem à plataforma na TV do que no celular. Embora não tenha revelado números exatos, a empresa citou dados da Nielsen que apontam que mais de 1 bilhão de horas de conteúdo do YouTube são assistidas diariamente em telas grandes.
O YouTube também destacou que lidera o tempo de streaming nos EUA há dois anos, superando até mesmo a Netflix. Essa popularidade pode ser atribuída à forma como a interface na TV foi projetada para funcionar de maneira semelhante aos serviços de streaming tradicionais, priorizando recomendações mais organizadas e uma experiência de navegação mais intuitiva.
A Experiência no Celular: Um Problema em Crescimento
Enquanto a versão para TV melhora, o aplicativo móvel do YouTube tem perdido qualidade. A experiência no celular vem sendo gradativamente moldada para enfatizar a rolagem vertical e conteúdo sugerido por algoritmos. Cada vez mais, a página inicial do YouTube móvel se assemelha a uma versão “lite” do YouTube Shorts, promovendo clipes curtos e virais em vez de destacar criadores e vídeos longos.
Muitos usuários percebem que seu feed é dominado por trechos de programas famosos, como 30 Rock e The West Wing, em vez de vídeos produzidos por criadores originais. Isso pode impulsionar engajamento, mas não necessariamente melhora a experiência do usuário, que busca uma seleção de conteúdo mais personalizada.
O Que a Netflix Faz Melhor
A Netflix é um exemplo de como um serviço de streaming pode oferecer uma experiência mais organizada. Embora também sugira conteúdo, a plataforma o faz de maneira estruturada, apresentando categorias horizontais que facilitam a navegação. O YouTube na TV segue um caminho parecido, permitindo que os usuários explorem melhor suas inscrições e recomendações.
O aplicativo móvel do YouTube poderia se beneficiar de um layout mais parecido com o da Netflix, oferecendo ao usuário mais controle sobre o que assistir, sem depender excessivamente do algoritmo.
O Impacto das Mudanças nos Criadores
Outro fator relevante é como essa mudança afeta os criadores de conteúdo. No último relatório trimestral da Alphabet, divulgado em dezembro de 2024, a empresa revelou que o número de criadores que obtêm a maior parte de sua receita a partir da TV aumentou mais de 30% em um ano.
Isso mostra que o YouTube está se tornando cada vez mais uma plataforma para ser assistida na TV, o que pode impactar a produção de vídeos. Se a plataforma continuar priorizando experiências imersivas na TV, é possível que criadores passem a investir mais em conteúdo long-form e menos em clipes curtos e virais.
O Futuro do YouTube: Mais Streaming ou Mais TikTok?
Curiosamente, enquanto o YouTube aposta cada vez mais na TV, também segue uma estratégia diferente com o YouTube TV, seu serviço de transmissão ao vivo. O preço da assinatura aumentou para US$ 83 por mês, tornando-se tão caro quanto o Hulu Plus Live TV, que ainda inclui o Disney+ e o Hulu na versão com anúncios.
A tendência é que o YouTube Premium também sofra novos reajustes, tornando mais difícil evitar os anúncios. Para quem não pode pagar, resta conviver com comerciais cada vez mais longos tanto no celular quanto na TV.
O desafio do YouTube agora é equilibrar sua evolução entre duas frentes distintas. Ao tentar se tornar um TikTok no celular e um Netflix na TV, a plataforma corre o risco de perder a identidade. Para continuar crescendo, talvez o melhor caminho seja focar na experiência do usuário e dar mais espaço para o que realmente importa: o conteúdo.