Durante quatro décadas, ele segurou mãos, comunicou diagnósticos difíceis e esteve presente em despedidas que transformaram famílias. Sua trajetória atravessa guerra, imigração e os corredores de um dos hospitais mais prestigiados dos Estados Unidos. Agora, longe dos centros médicos, o oncologista compartilha uma visão provocadora sobre os rumos das discussões em torno do fim da vida — e alerta para consequências que, segundo ele, poucos estão dispostos a enxergar.
Da guerra ao hospital: a formação de um médico que escolheu dizer a verdade

Nascido no Líbano, Gabriel Sara teve contato com a morte ainda jovem, em meio aos conflitos que marcaram seu país. Formado na Université Saint-Joseph de Beirute nos anos 1980, mudou-se para os Estados Unidos e construiu carreira no Hospital Monte Sinai, em Nova York, onde chegou a dirigir o departamento de oncologia.
Ali, implementou um modelo de cuidado que ia além da quimioterapia e dos protocolos clínicos. Introduziu música, arte, dança, animais e rodas de conversa como parte do tratamento. A proposta era clara: cuidar da pessoa inteira, não apenas da doença. A experiência inspirou o filme “De son vivant” (“Em vida”), no qual o próprio médico interpreta a si mesmo.
Mas sua marca principal não estava nas terapias complementares. Estava na postura diante do paciente. Desde o primeiro encontro, compromete-se a dizer a verdade — sem suavizar excessivamente, mas também sem brutalidade. Para ele, confiança nasce da clareza.
Ao longo da carreira, tratou cânceres curáveis, doenças controláveis e casos terminais. Em cada etapa, ajustava o objetivo: curar quando possível, prolongar com qualidade quando necessário, e preparar para uma despedida serena quando não havia mais alternativas terapêuticas.
O debate sobre a morte e a “terceira via” esquecida
Nos últimos anos, discussões sobre eutanásia ganharam força em diversos países. Gabriel Sara observa esse movimento com inquietação. Para ele, o debate costuma ser simplificado em excesso: morrer com sofrimento ou recorrer à eutanásia para garantir dignidade.
“O problema é reduzir algo tão complexo a apenas duas opções”, defende.
Segundo o oncologista, existe uma terceira via frequentemente negligenciada: os cuidados paliativos bem estruturados. Quando aplicados com preparo técnico e sensibilidade humana, eles conseguem aliviar a dor física e também os medos que acompanham o diagnóstico terminal.
Em mais de quarenta anos de prática, alguns pacientes chegaram a pedir medicamentos para morrer. Em vez de recusar de forma automática, Sara optava por escutar e propor alternativas para aliviar o sofrimento. Nenhum deles voltou a insistir no pedido após receber suporte adequado.
Para ele, a questão central é o abandono. Quando o paciente sente que foi deixado à própria sorte, o desespero cresce. Quando percebe que continuará acompanhado até o último instante, o cenário muda.
A morte, diz, deixou de ser compreendida como parte da condição humana e passou a ser vista como fracasso médico. Esse deslocamento, na sua visão, alimenta a dificuldade de lidar com o fim da vida de forma madura.
O impacto invisível sobre profissionais de saúde
Um ponto raramente discutido, segundo o médico, é o efeito psicológico sobre profissionais que aplicam a eutanásia. Ele menciona relatos de colegas que, mesmo convictos no momento da decisão, posteriormente enfrentaram sentimentos profundos de culpa.
Trata-se, afirma, de uma experiência irreversível. Não é um erro clínico, mas um ato consciente que encerra uma vida. Esse peso emocional, comparado por ele a um tipo de estresse pós-traumático, quase nunca entra no debate público.
Ao mesmo tempo, alerta para outro risco: a negligência no desenvolvimento de cuidados paliativos. Investir em formação médica e em equipes multidisciplinares é mais caro e exige planejamento de longo prazo. Uma solução rápida pode acabar se tornando substituto de políticas estruturais.
Ele também defende a ampliação das diretivas antecipadas — documentos nos quais pacientes registram seus desejos sobre tratamentos futuros. Para Sara, isso protege contra intervenções desproporcionais e evita conflitos familiares em momentos críticos.
Um alerta que vai além da medicina
Ao analisar o cenário internacional, Gabriel Sara faz uma advertência direta: se os cuidados paliativos não forem fortalecidos, a eutanásia corre o risco de se tornar a alternativa disponível para quem não pode pagar por assistência de qualidade.
“Existe o perigo de que um caminho seja reservado aos mais vulneráveis, enquanto outro fique restrito a quem tem recursos”, argumenta.
Para ele, os últimos momentos da vida são sagrados. Permanecer vivo até o último segundo significa ainda ter possibilidade de reconciliação, de transformação e de despedidas que reorganizam histórias familiares.
Relata casos de pacientes que, nas semanas finais, conseguiram resolver conflitos antigos, pedir perdão ou simplesmente expressar gratidão. Se a morte tivesse sido antecipada, essas experiências não teriam acontecido.
Na visão do oncologista, o fim da vida não é apenas um evento médico, mas um processo humano profundo. E a maneira como as sociedades escolhem lidar com ele diz muito sobre seus valores.
[Fonte: ABC]