Em um cenário onde a alimentação infantil demanda o mais alto grau de segurança, um estudo inédito da Unicamp trouxe à tona descobertas alarmantes. A pesquisa, liderada por cientistas da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA), detectou resíduos de agrotóxicos – inclusive banidos no Brasil – e até fármacos veterinários em fórmulas infantis disponíveis no mercado nacional. Apesar de estarem dentro dos limites considerados seguros, a presença dessas substâncias levanta preocupações sobre os efeitos em bebês com sistemas metabólicos ainda em desenvolvimento.
Substâncias além do esperado

Foram analisadas 30 amostras de fórmulas infantis e, em duas frentes distintas, os pesquisadores identificaram desde pesticidas até hormônios e medicamentos utilizados em animais. A primeira análise utilizou uma lista com 23 contaminantes prováveis, incluindo compostos comumente usados no Brasil, além de uma triagem ampliada com mais de 2 mil substâncias presentes em um banco de dados internacional.
O resultado: 32 compostos identificados, muitos não previstos na lista inicial. Entre os mais preocupantes, estavam pesticidas como fenitrotiona, clorpirifós e bifentrina — substâncias detectadas em níveis abaixo dos limites da União Europeia, mas ainda assim alarmantes por se tratarem de alimentos infantis. A análise revelou ainda a presença do carbofurano, proibido desde 2017, encontrado em 10% das amostras, provavelmente devido à persistência ambiental e à contaminação indireta das matérias-primas.
Contaminações silenciosas na cadeia de produção
Uma segunda análise detectou seis compostos em mais de 86% das amostras. Entre eles, destacam-se o metamidofós — também banido no país — e o pyridaben, em níveis superiores ao permitido na Europa. As pesquisadoras sugerem que os resíduos podem ter se originado em diferentes etapas da cadeia produtiva: desde a origem do leite (vaca ou cabra), passando por rações, ambientes contaminados ou mesmo materiais usados no empacotamento.
A presença dessas substâncias levanta questionamentos sobre a segurança da produção e a fiscalização vigente no Brasil, especialmente porque não existem normas específicas que regulamentem o controle de contaminantes em fórmulas infantis, ao contrário de outros países.
Por que o risco é maior para bebês?
Mesmo quando os níveis estão dentro dos padrões internacionais, os especialistas alertam que o organismo dos bebês não possui um sistema completamente desenvolvido para metabolizar e eliminar toxinas. Isso torna o impacto dessas substâncias mais significativo em comparação com adultos, podendo influenciar o desenvolvimento neurológico e imunológico nas fases iniciais da vida.
Segundo a professora Helena Godoy, o objetivo da pesquisa não é causar alarme, mas sim reforçar a importância de garantir alimentos mais seguros para a primeira infância. O processamento das fórmulas continua sendo importante, mas a ausência de regulação eficaz compromete a confiança nos produtos.
Um chamado à regulação e à consciência
A pesquisadora Marcella Galindo, responsável pela tese, destaca que o Brasil carece de uma legislação específica para esse tipo de produto, o que torna a fiscalização difícil e os riscos maiores. O avanço tecnológico nas técnicas de detecção hoje permite identificar até mínimas quantidades de contaminantes — algo essencial para que as futuras normas sejam aplicáveis de forma eficiente.
O próximo passo da pesquisa será investigar o leite materno, buscando contaminantes derivados de fatores ambientais, embalagens e estilo de vida das mães. O foco será entender como hábitos alimentares e exposição cotidiana podem afetar a composição do leite e, por consequência, a saúde dos bebês.
A recomendação é clara: é preciso conscientizar mães e famílias sobre a importância de evitar alimentos e produtos potencialmente contaminados, promovendo uma alimentação segura e saudável desde os primeiros dias de vida. A segurança alimentar infantil, afinal, começa muito antes da primeira mamadeira.
[Fonte: A cidade on]