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Ciência

O que está dando errado na maior promessa ambiental para os mares

Existe uma meta global que parece simples, mas esconde um problema enorme. A ciência insiste que o tempo está acabando — e que proteger o oceano não é só contar áreas no mapa.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Nos últimos anos, o oceano entrou definitivamente no centro do debate ambiental. Não como paisagem distante, mas como um sistema essencial para o clima, a economia e a própria sobrevivência humana. Em meio a esse cenário, uma meta se tornou símbolo de esperança: proteger 30% dos mares até 2030. O que poucos percebem é que o desafio não está apenas no número — e sim em tudo o que ele esconde.

Por que o oceano sustenta muito mais do que imaginamos

O oceano é o grande regulador silencioso do planeta. Ele absorve uma parcela significativa do dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas, ajuda a estabilizar as temperaturas globais e produz boa parte do oxigênio que respiramos. Além disso, sustenta cadeias alimentares inteiras, milhões de empregos e comunidades costeiras ao redor do mundo.

Apesar desse papel central, os mares estão entre os ecossistemas mais pressionados da Terra. A sobrepesca reduz populações inteiras de espécies comerciais, a poluição se acumula em níveis invisíveis, o aquecimento global altera correntes e o aumento da acidez compromete recifes e organismos fundamentais. A degradação avança de forma silenciosa, mas constante.

Foi diante desse cenário que, em 2022, quase 200 países assumiram um compromisso histórico em uma conferência da ONU sobre biodiversidade: garantir que pelo menos 30% do oceano esteja protegido até 2030. A meta ficou conhecida como “30×30” e rapidamente virou referência global. Hoje, no entanto, cresce a percepção de que estamos longe do necessário.

Quando “proteger” não significa proteger de verdade

À primeira vista, os números parecem animadores. Aproximadamente 10% do oceano já aparece oficialmente como área marinha protegida. O problema surge quando se olha com mais atenção. Menos de um terço dessas áreas possui regras rígidas de conservação. Muitas permitem pesca industrial, exploração de recursos ou atividades incompatíveis com a recuperação dos ecossistemas.

Na prática, parte significativa dessas áreas existe apenas no papel. São zonas delimitadas em documentos, mas sem fiscalização, gestão eficaz ou impacto real. Proteger o oceano não é desenhar linhas em um mapa: é definir regras claras, garantir cumprimento e manter financiamento contínuo.

Outro erro recorrente é tratar as áreas protegidas como ilhas isoladas. A vida marinha depende de conexões. Peixes, larvas e nutrientes circulam. Quando as áreas não formam redes integradas, seu efeito se dilui. A ciência mostra que sistemas conectados são muito mais eficazes para restaurar populações e aumentar a resiliência climática.

Há ainda um desequilíbrio geográfico evidente. Grande parte da proteção está concentrada em regiões remotas e profundas, longe da costa. Já as áreas costeiras — onde a biodiversidade é maior e a pressão humana mais intensa — seguem pouco protegidas ou fragmentadas em zonas pequenas e frágeis.

O papel esquecido das pessoas e o relógio correndo

As áreas marinhas protegidas que realmente funcionam compartilham um elemento-chave: envolvem quem vive do oceano. Pescadores artesanais, comunidades locais, cientistas e gestores públicos precisam participar desde o início. Sem apoio social, fiscalização constante e recursos, até a melhor legislação fracassa.

O objetivo de proteger 30% do oceano até 2030 ainda é possível, mas exige uma mudança de abordagem. Menos áreas simbólicas, mais proteção real. Menos quantidade vazia, mais qualidade ecológica. O oceano não responde a promessas — responde a decisões eficazes. E o tempo, definitivamente, não está a nosso favor.

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