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Ciência

O que significa querer passar o Ano Novo sozinho, segundo a psicologia

Enquanto multidões celebram a virada com festas e fogos, algumas pessoas preferem o silêncio e a introspecção. Especialistas explicam que passar o Ano Novo sozinho pode ser uma escolha legítima — e saudável — dependendo da motivação. O problema, alertam, é quando a solidão deixa de ser escolha e vira imposição.
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Tempo de leitura: 3 minutos

À meia-noite do dia 31 de dezembro, o roteiro parece sempre o mesmo: brindes, abraços, música alta e promessas de recomeço. Mas nem todos se reconhecem nesse cenário. Para algumas pessoas, a virada do ano é vivida em silêncio, longe de festas e reuniões. A psicologia afirma que essa decisão, muitas vezes vista com estranhamento, pode revelar muito mais sobre autenticidade e saúde emocional do que sobre isolamento.

As festas como marco emocional: alegria e luto ao mesmo tempo

As celebrações de fim de ano carregam um peso simbólico que vai além da troca de calendário. Segundo Associação Psicanalítica Argentina, datas como o Ano Novo funcionam como marcos de encerramento e continuidade da própria vida.

A psicanalista Mirta Goldstein, presidente da instituição, explica que esses períodos costumam despertar emoções ambivalentes. “As festas são significativas porque algo termina e algo começa. Alegria e tristeza caminham juntas”, afirmou em entrevista ao Infobae.

Essa mistura emocional tende a se intensificar em pessoas que vivem sozinhas — nem sempre por escolha. Idosos com filhos distantes, indivíduos que perderam vínculos importantes ou atravessam mudanças profundas podem experimentar a solidão como consequência das circunstâncias, não como decisão pessoal.

Soledade escolhida e soledade imposta não são a mesma coisa

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© Pixabay/Pexels

Do ponto de vista psicológico, passar o Ano Novo sozinho não obedece a um único padrão. A psicanalista Alicia Killner diferencia a solidão buscada daquela vivida com sofrimento.

Há pessoas que não se sentem confortáveis em ambientes de grande excitação emocional, festas ou demonstrações públicas de alegria. Para elas, o isolamento pode ser uma forma de autoproteção. Outras rejeitam o que Killner chama de “felicidade obrigatória” — a pressão social para parecer feliz, consumir mais e celebrar intensamente, mesmo quando não há disposição emocional para isso.

“Quem decidiu que essa data exige companhia indesejada?”, questiona a especialista. Na sua avaliação, cada pessoa deveria ter liberdade para lidar com a angústia das festas do modo que fizer mais sentido para si.

A pressão social de celebrar e o desconforto do silêncio

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© Pexels

O fim de ano costuma amplificar expectativas externas. Há uma narrativa dominante de que a virada precisa ser comemorada com entusiasmo, o que pode gerar culpa ou inadequação em quem prefere recolhimento.

Killner recorre a uma imagem literária para ilustrar essa sensação: um poema de Jorge Luis Borges que descreve o Ano Novo como uma “metáfora vazia”, na qual o tempo parece imóvel apesar dos rituais. Para alguns, a repetição automática das celebrações esvazia o sentido da data.

Isolamento como escolha ou como sofrimento

Outra leitura vem do psicanalista Juan Eduardo Tesone, professor emérito da Universidade do Salvador. Ele ressalta que nenhuma data precisa ser, obrigatoriamente, festiva para todos.

“O significado de uma mesma data varia enormemente de pessoa para pessoa”, afirma. Para alguns, ficar sozinho pode representar tranquilidade e recolhimento. Para outros, pode ser vivido como abandono ou carência afetiva. A diferença está na motivação.

Tesone alerta para a importância de distinguir entre a solidão escolhida — associada à paz e à autonomia — e a solidão como forma de autopunição ou retraimento depressivo.

É saudável passar o Ano Novo sozinho?

Os especialistas concordam que não existe uma resposta universal. Passar o Ano Novo sozinho não é, em si, saudável ou prejudicial. Tudo depende do contexto emocional e do momento de vida da pessoa.

Goldstein lembra que existem “soledades criativas”, ligadas à reflexão e ao autoconhecimento, mas também isolamentos associados à depressão, fobias ou sofrimento psíquico. Embora o contato com pessoas afetivamente próximas seja, em geral, benéfico, forçar a convivência pode aumentar a angústia quando não há desejo ou possibilidade real de compartilhar.

Autenticidade acima das convenções

A conclusão dos especialistas converge para um ponto central: a autenticidade da escolha. O impacto emocional da virada do ano depende menos de estar acompanhado ou não, e mais de viver a data de forma coerente com o próprio estado interno.

“Não é saudável nem não saudável. O essencial é que seja uma escolha, não uma imposição”, resume Tesone.

Em meio ao barulho dos fogos e à pressão para celebrar, a psicologia propõe legitimar todas as formas de atravessar o fim de ano — em grupo ou em silêncio, com euforia ou introspecção. No fundo, o sentido da virada parece estar menos no ritual coletivo e mais na forma singular como cada um decide habitar o tempo que começa.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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