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Ciência

O risco do uso precoce de maconha

Um estudo com centenas de milhares de jovens reacende o debate sobre os efeitos do consumo precoce — e os resultados chamam atenção de médicos e famílias.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O consumo de cannabis entre adolescentes volta ao centro das discussões científicas após novos dados ampliarem a preocupação de especialistas. Embora muitas vezes visto como de baixo risco por parte dos jovens, o uso nessa fase da vida pode ter consequências mais profundas do que se imaginava. Pesquisadores acompanharam centenas de milhares de adolescentes por anos — e os resultados ajudam a entender por que médicos pedem mais cautela.

Estudo amplo reforça associação com transtornos mentais

O risco do uso precoce de maconha
© Pexels

Uma pesquisa conduzida por universidades da Califórnia em parceria com instituições médicas analisou 463.396 adolescentes entre 13 e 17 anos, acompanhando esses jovens até os 26 anos. O trabalho foi publicado no periódico científico JAMA Health Forum.

Os dados indicam que o consumo de cannabis no último ano durante a adolescência está associado a um risco cerca de duas vezes maior de desenvolvimento de transtornos psicóticos e bipolares no início da vida adulta. Além disso, o estudo observou aumento significativo na probabilidade de depressão e ansiedade.

Em média, entre os adolescentes que usaram a substância e depois receberam diagnóstico psiquiátrico, o intervalo até o aparecimento do transtorno variou entre 1,7 e 2,3 anos.

Os pesquisadores destacam que o desenho longitudinal — que acompanha os participantes ao longo do tempo — fortalece evidências já observadas anteriormente sobre o papel do consumo precoce como fator de risco potencial.

Por que a adolescência é um período mais sensível

Especialistas explicam que o cérebro ainda está em desenvolvimento durante a adolescência, especialmente em áreas ligadas à tomada de decisão, controle emocional e processamento de recompensas.

Nesse contexto, a exposição a substâncias psicoativas pode ter impacto mais relevante do que na vida adulta. Segundo os autores, mesmo após considerar condições prévias de saúde mental e o uso de outras drogas, os adolescentes que relataram consumo de cannabis continuaram apresentando risco substancialmente maior de transtornos psiquiátricos.

Outro ponto destacado é que o estudo não se concentrou apenas em usuários intensivos ou dependentes. Ele avaliou qualquer uso relatado no último ano durante consultas pediátricas de rotina, o que amplia a relevância dos achados para a população geral.

Pesquisas anteriores já haviam sugerido ligação entre cannabis e episódios psicóticos, mas análises recentes indicam que essa relação pode ser mais forte do que se estimava.

Potência crescente e consumo disseminado elevam preocupação

Os pesquisadores também chamam atenção para uma mudança importante no mercado: a cannabis disponível hoje tende a ser mais potente do que em décadas passadas.

Na Califórnia, por exemplo, a concentração média de THC — principal composto psicoativo da planta — já supera 20% nas flores, enquanto produtos concentrados podem ultrapassar 95%.

Para especialistas em saúde pública, essa elevação na potência, combinada a estratégias de marketing mais agressivas, torna ainda mais urgente o acesso a informações claras para pais e adolescentes.

O consumo entre jovens continua relevante. Nos Estados Unidos, levantamentos indicam que a proporção de adolescentes que relatam uso aumenta com a idade escolar. Dados nacionais de 2024 apontam que mais de 10% dos jovens entre 12 e 17 anos haviam consumido cannabis no último ano.

Ao mesmo tempo, tendências variam por país. No México, por exemplo, pesquisas recentes indicaram queda no consumo entre menores, enquanto o tema segue em debate político em nações europeias que avançaram na legalização parcial.

Informação e prevenção seguem como principais ferramentas

Os autores do estudo reforçam que os resultados não significam que todos os adolescentes que experimentam cannabis desenvolverão transtornos mentais. No entanto, apontam para um aumento estatístico de risco que merece atenção.

Para especialistas, o ponto central é garantir que famílias e jovens tenham acesso a informações baseadas em evidências, capazes de orientar decisões mais conscientes.

Diante da popularização da substância e das mudanças em sua potência, o debate sobre riscos, idade de início e políticas públicas deve continuar ganhando espaço — especialmente quando o foco é a saúde mental na transição para a vida adulta.

[Fonte: DW]

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