Super-Terras são comuns fora do Sistema Solar. Esses planetas, geralmente maiores que a Terra e menores que gigantes como Netuno, aparecem em inúmeros sistemas planetários conhecidos. Aqui, porém, não existe nenhum mundo desse tipo. Essa ausência intriga astrônomos há décadas.
Agora, um estudo publicado na Monthly Notices of the Royal Astronomical Society apresenta uma hipótese surpreendente: talvez o Sistema Solar tenha tido sua própria super-Terra. Ela teria migrado em direção ao Sol durante os primeiros estágios do sistema e acabado engolida pela estrela.
E sua destruição pode ter deixado marcas que ainda hoje estão escondidas dentro do Sol.
Um planeta perdido dentro do Sol

A hipótese foi proposta pelo astrônomo Mutlu Yıldız, da Universidade de Ege, na Turquia.
O pesquisador partiu de dois problemas conhecidos nos modelos sobre a evolução solar. Embora eles consigam reproduzir muitas características do Sol com grande precisão, algumas diferenças permanecem.
Uma delas aparece por meio da heliossismologia, técnica que utiliza as oscilações do Sol para investigar sua estrutura interna, de maneira semelhante ao uso de ondas sísmicas para estudar o interior da Terra.
As observações revelam diferenças na velocidade do som em uma região localizada logo abaixo da zona convectiva solar.
Existe ainda outro mistério: o Sol possui muito menos lítio em sua superfície do que determinados modelos de evolução estelar preveem.
Yıldız sugere que os dois problemas podem estar relacionados ao mesmo acontecimento.
Uma super-Terra com até quase seis vezes a massa do nosso planeta
Segundo o modelo apresentado pelo pesquisador, uma super-Terra com aproximadamente 4,6 a 5,8 vezes a massa da Terra teria existido durante a juventude do Sistema Solar.
Em algum momento, sua órbita teria se tornado instável e o planeta começou a migrar em direção à estrela.
O destino final foi o próprio Sol.
Ao ser engolido, o planeta teria depositado grandes quantidades de material no interior da estrela. Parte desses elementos mais pesados teria alcançado regiões profundas, alterando a composição abaixo da zona convectiva.
Quando Yıldız incorporou esse cenário aos modelos solares, conseguiu reproduzir melhor algumas das diferenças na velocidade do som observadas atualmente pela heliossismologia.
Isso levanta uma possibilidade fascinante: bilhões de anos depois, o Sol ainda poderia carregar uma espécie de impressão digital química do planeta que destruiu.
O mistério do lítio também pode ter uma explicação
A hipótese poderia ajudar a explicar outro quebra-cabeça antigo.
O Sol apresenta uma quantidade surpreendentemente baixa de lítio em sua atmosfera quando comparado ao que alguns modelos esperariam.
Astrônomos já propuseram diferentes mecanismos internos para explicar como esse elemento poderia ter sido transportado para regiões mais quentes e destruído ao longo da evolução solar.
A super-Terra acrescentaria outro mecanismo ao processo.
Se o planeta engolido tivesse relativamente pouco lítio, seu material poderia alterar a abundância desse elemento nas camadas externas. Ao mesmo tempo, a mistura provocada pela entrada de material planetário poderia transportar lítio para regiões mais profundas e quentes, onde ele seria destruído.
Nos cálculos apresentados pelo pesquisador, a combinação desses processos ajuda a reproduzir a baixa quantidade de lítio observada atualmente.
Nosso Sistema Solar é estranho quando comparado a outros

A descoberta de milhares de exoplanetas revelou que sistemas planetários podem ser muito diferentes do nosso.
Um dos contrastes mais interessantes envolve justamente as super-Terras e os chamados sub-Netunos.
Planetas desse tipo aparecem frequentemente em órbitas próximas de suas estrelas. No Sistema Solar, porém, existe um enorme salto entre os pequenos planetas rochosos e gigantes como Urano e Netuno.
Não há nenhuma super-Terra.
A nova hipótese sugere que essa diferença talvez não exista porque um planeta desse tipo nunca tenha se formado. Ele simplesmente pode não ter sobrevivido.
Durante a fase caótica de formação do Sistema Solar, interações gravitacionais e processos envolvendo o disco de gás e poeira poderiam ter levado esse mundo a migrar para dentro até desaparecer no Sol.
O desaparecimento pode ter mudado a história da Terra
A perda dessa super-Terra também teria consequências para a arquitetura do Sistema Solar.
Um planeta várias vezes mais massivo que a Terra na região interna exerceria uma influência gravitacional importante sobre seus vizinhos.
Seu desaparecimento poderia, portanto, ter contribuído para a configuração final das órbitas de Mercúrio, Vênus, Terra e Marte.
Isso não significa que o estudo demonstre que a Terra ou a vida dependiam necessariamente da destruição desse planeta. A relação ainda é hipotética e envolve uma história dinâmica extremamente complexa.
Mas o cenário sugere que a ausência de uma super-Terra pode ter sido um dos acontecimentos que ajudaram a produzir o Sistema Solar que observamos hoje.
Estrelas podem guardar os restos dos planetas que destruíram
A hipótese também abre uma possibilidade interessante para o estudo de outras estrelas.
Se engolir um planeta altera de maneira detectável a composição e a estrutura interna de uma estrela, astrônomos poderiam procurar essas assinaturas em outros sistemas.
A técnica equivalente à heliossismologia aplicada a outras estrelas, conhecida como asterossismologia, permite investigar seu interior analisando pequenas oscilações.
Missões como a PLATO, da Agência Espacial Europeia, foram projetadas justamente para realizar medições extremamente precisas de estrelas e seus sistemas planetários.
No futuro, dados desse tipo poderão ajudar a determinar se estrelas semelhantes ao Sol também carregam sinais de antigos planetas destruídos.
Por enquanto, a super-Terra do Sistema Solar continua sendo uma hipótese baseada em modelos, e não um planeta cuja existência tenha sido comprovada.
Mas, se Yıldız estiver no caminho certo, a ausência mais intrigante do nosso Sistema Solar pode ter uma explicação inesperada: o planeta existiu, aproximou-se demais de sua estrela e acabou desaparecendo dentro dela há bilhões de anos.
[ Fonte: Quo ]