Falar sobre saúde mental costuma levar a conselhos individuais: desacelerar, procurar terapia, aprender a lidar melhor com as próprias emoções. Mas essa narrativa ignora algo essencial. O sofrimento psíquico não surge no vazio. Ele é construído dentro de contextos sociais, históricos e relacionais que pressionam, adoecem e silenciam. Essa visão mais ampla esteve no centro de um debate recente que propôs repensar como a sociedade enxerga o cuidado mental.
Antes do sintoma, existe uma estrutura

Durante um painel dedicado à saúde mental no Brasil, a psicóloga e psicanalista Ana Luísa Coelho Moreira chamou atenção para um ponto frequentemente negligenciado: os sintomas não aparecem isoladamente. Eles são resultado de estruturas que atravessam a vida cotidiana das pessoas, desde o trabalho até as relações familiares.
Na prática, isso significa que ansiedade, exaustão, crises de pânico ou sofrimento emocional não podem ser analisados apenas como falhas individuais. A tendência dominante, segundo a especialista, é responsabilizar o sujeito, como se o adoecimento fosse consequência direta de incapacidade pessoal, falta de esforço ou má gestão da própria vida.
Essa lógica reforça a ideia de que cada pessoa deve “dar conta” sozinha do que sente, apagando o papel do ambiente em que ela vive. O cuidado passa a ser visto como um dever individual, e não como uma responsabilidade compartilhada.
O peso da responsabilização individual no sofrimento psíquico
Quando alguém busca ajuda psicológica, muitas vezes relata sinais isolados — palpitações, ansiedade constante, dificuldade para dormir — sem perceber que esses sintomas fazem parte de algo maior. O foco excessivo no indivíduo acaba obscurecendo fatores sociais e culturais que sustentam o adoecimento ao longo do tempo.
Esse tipo de abordagem não apenas limita a compreensão do problema, como também aprofunda o sofrimento. Ao acreditar que está falhando sozinha, a pessoa tende a sentir culpa, vergonha e impotência, o que dificulta ainda mais o processo de cuidado.
A crítica central é clara: tratar o adoecimento mental como um problema exclusivamente pessoal é ignorar as condições que o produzem. E isso inclui desde jornadas de trabalho exaustivas até relações marcadas por violência simbólica e exclusão.
Desigualdade, violência e excesso de estímulos
Entre os fatores que impactam diretamente a saúde mental, a especialista destaca desigualdades sociais profundas, exposição constante à violência e a convivência diária com discursos sensacionalistas. Esses elementos não aparecem de forma pontual — eles estão presentes desde a infância e se acumulam ao longo da vida.
Além disso, violências estruturais como racismo, sexismo e capacitismo moldam experiências de sofrimento específicas. Pessoas submetidas a essas opressões enfrentam pressões adicionais que afetam diretamente sua saúde psíquica, especialmente nas relações sociais e profissionais que desenvolvem ao longo do tempo.
Esse cenário cria um ambiente de desgaste contínuo, no qual o sofrimento deixa de ser exceção e passa a ser parte da rotina. Ainda assim, ele continua sendo tratado como um problema individual, e não como reflexo de uma sociedade adoecida.
Nem todo mundo parte do mesmo ponto
Outro aspecto central dessa discussão é a ideia de interseccionalidade. Gênero, raça, classe social, religião e território influenciam diretamente a forma como cada pessoa vivencia o mundo — e, consequentemente, como adoece.
A noção de que todos têm as mesmas oportunidades, o mesmo tempo disponível ou os mesmos recursos emocionais não se sustenta na realidade. Ignorar essas diferenças leva a políticas de cuidado genéricas, que não alcançam quem mais precisa.
Reconhecer essas camadas não significa negar a singularidade do sofrimento, mas entendê-lo dentro de um contexto mais amplo, onde fatores externos têm peso real e mensurável.
Cuidado coletivo como resposta ao adoecimento
Diante desse cenário, a proposta é ampliar o conceito de cuidado em saúde mental. Escuta ética, respeito ao tempo de cada pessoa e construção de vínculos aparecem como elementos centrais, mas não suficientes por si só.
Há também uma defesa clara do investimento contínuo em políticas públicas que criem espaços de acolhimento e cuidado coletivo. O sofrimento leva tempo para se formar — e também exige tempo para ser elaborado. Soluções rápidas e individualizadas raramente dão conta de problemas estruturais.
Esse debate ganha ainda mais relevância diante dos dados recentes: no Brasil, houve um aumento expressivo no número de afastamentos do trabalho por transtornos mentais nos últimos anos. O crescimento acende um alerta que vai além da saúde individual e aponta para falhas sistêmicas que precisam ser enfrentadas por governos, instituições e pela sociedade como um todo.
Repensar a saúde mental como uma questão coletiva talvez seja o primeiro passo para deixar de tratar sintomas isolados e começar a enfrentar as causas profundas do sofrimento contemporâneo.
[Fonte: Correio Braziliense]