Encontrar uma ilha que não aparecia nos mapas pode parecer uma descoberta geográfica fascinante. Mas, em uma região da Ásia Central, o surgimento de novas porções de terra está provocando preocupação entre pesquisadores. O fenômeno não acontece porque o fundo do oceano está subindo, nem por atividade vulcânica. A explicação está na água que desaparece lentamente, deixando exposta uma paisagem que permaneceu submersa durante décadas.
Uma nova ilha apareceu no mar Cáspio — e outras estão surgindo
O mar Cáspio, localizado entre a Europa e a Ásia, é a maior massa de água interior do planeta. Apesar do nome, trata-se de um enorme corpo de água fechado, sem ligação natural com os oceanos.
Seu tamanho impressionante, porém, não está impedindo uma transformação cada vez mais visível.
Nas proximidades da ilha Kulaly, diante da costa do Cazaquistão, um reconhecimento aéreo identificou uma nova porção de terra que anteriormente permanecia submersa.
Segundo o ambientalista Daniyar Akimzhanov, que participou da observação, o fenômeno vem se repetindo.
Nos últimos quatro ou cinco anos, ele documentou o aparecimento de várias áreas emergidas no norte do Cáspio. Algumas chegam a aproximadamente um quilômetro de comprimento e entre 200 e 300 metros de largura.
Esses novos espaços já começaram a receber visitantes inesperados.
Akimzhanov relatou ter encontrado um javali em uma das ilhas. Durante o inverno, lobos também conseguem alcançar determinadas áreas quando o gelo estabelece conexões temporárias com o continente.
Mas nem todas essas formações necessariamente continuarão existindo.
Ondas, mudanças no nível da água e características do relevo submerso podem fazer com que algumas desapareçam ou se conectem definitivamente à costa.
O aparecimento das ilhas, portanto, não representa necessariamente um aumento permanente de território.
É um sinal de que o mar está perdendo água.
O nível caiu quase dois metros e meio em apenas três décadas
Os números mostram a dimensão dessa transformação.
Na região do Cazaquistão, o nível do mar Cáspio passou de -26,82 metros em 1996 para -29,27 metros em 2025, uma redução de aproximadamente 2,45 metros.
Em julho de 2026, a estação de monitoramento de Kulaly registrou -29,42 metros, o menor valor observado no período analisado.
Uma diferença de poucos metros pode parecer pequena para um mar tão grande.
O problema está na geografia.
Enquanto as regiões centrais e meridionais do Cáspio são profundas, sua porção norte apresenta águas extremamente rasas e um fundo relativamente plano.
Isso significa que uma redução vertical modesta pode provocar um recuo horizontal de vários quilômetros.
Entre 2000 e 2025, aproximadamente 16.384 quilômetros quadrados de superfície aquática desapareceram na área estudada do nordeste do Cáspio.
É uma extensão superior à área de muitos pequenos países.
A explicação está no delicado equilíbrio hídrico da região.
Como não possui saída para o oceano, o Cáspio depende da água fornecida por rios e precipitações para compensar aquilo que perde por evaporação.
Mais de 80% da contribuição dos rios vem do Volga, um dos maiores cursos d’água da Europa.
Com o aquecimento regional, a evaporação aumenta. Ao mesmo tempo, barragens, irrigação e outras formas de retirada de água podem diminuir o volume que finalmente chega ao mar.
Embora o Cáspio tenha apresentado grandes oscilações naturais ao longo da história, os pesquisadores alertam que o aquecimento atual está modificando novamente esse equilíbrio.
As focas estão perdendo seus refúgios — e o futuro pode ser ainda mais preocupante
A transformação não afeta apenas os mapas.
A foca-do-cáspio, espécie encontrada naturalmente apenas nessa região, depende de ilhas isoladas para descansar e do gelo marinho para se reproduzir.
Com o recuo da água, algumas ilhas antes cercadas pelo mar acabam se conectando ao continente.
Isso facilita o acesso de pessoas e predadores a áreas anteriormente protegidas.
Além disso, invernos mais quentes reduzem a formação de gelo estável, fundamental para o nascimento dos filhotes.
As projeções para o restante do século são preocupantes.
Um estudo recente estima que o nível do Cáspio poderá cair aproximadamente oito metros até 2100, considerando um cenário intermediário de emissões.
Em um cenário de emissões elevadas, a redução poderia alcançar 14 metros.
Isso não significa que todo o mar Cáspio desaparecerá como aconteceu com grande parte do mar de Aral. Suas regiões mais profundas apresentam características diferentes.
Mas o setor norte poderá passar por uma transformação radical, com extensas áreas atualmente submersas convertidas em terra.
A nova ilha encontrada perto do Cazaquistão, portanto, não é apenas uma curiosidade geográfica.
Ela representa uma das consequências mais visíveis de um processo que está redesenhando o maior mar fechado do mundo.
E, se as projeções climáticas se confirmarem, aquilo que hoje parece uma descoberta isolada poderá se tornar parte de uma mudança muito maior na paisagem da Ásia Central.