Apesar de ser o menor planeta do Sistema Solar, Mercúrio abriga um dos maiores enigmas da astronomia moderna. Sua composição incomum e densidade extrema não se encaixam nos modelos convencionais de formação planetária. Agora, um estudo inovador conduzido por cientistas do Brasil, Alemanha e França propõe uma nova teoria que pode esclarecer esse mistério — e mudar a forma como entendemos a criação de planetas rochosos.
A colisão que deu origem a Mercúrio
De acordo com a pesquisa, publicada recentemente, Mercúrio teria surgido a partir de uma colisão violenta, mas oblíqua, entre dois protoplanetas de tamanho semelhante. Essa hipótese contrasta com teorias anteriores que sugeriam um único impacto destrutivo com um corpo muito maior.
O novo modelo simula uma colisão do tipo “atropelamento e fuga”, em que um protoplaneta atingiu Mercúrio de forma lateral, arrancando parte de sua crosta e manto externo, mas sem causar a vaporização dos elementos mais leves — como potássio, enxofre e sódio — encontrados em sua superfície.
Esses elementos voláteis, que normalmente seriam destruídos por uma colisão direta ou de alta energia, surpreendentemente permanecem presentes em Mercúrio, conforme apontado pelas observações da sonda MESSENGER da NASA. Esse detalhe sempre intrigou os cientistas e fortalece a nova teoria, que apresenta uma explicação mais coerente com os dados disponíveis.
Simulações que recriam Mercúrio com precisão
As simulações computacionais realizadas pela equipe permitiram recriar com grande exatidão a estrutura interna e a composição do planeta. Um fator crucial foi o ângulo de impacto: certas inclinações resultaram na perda de massa suficiente para explicar o núcleo desproporcionalmente grande de Mercúrio — que representa cerca de 60% de sua massa total.
Além disso, o momento do impacto também foi essencial. Segundo os pesquisadores, a colisão teria ocorrido dezenas de milhões de anos após o nascimento do Sistema Solar, quando os planetas jovens já haviam formado seus núcleos e mantos. Um impacto nesse estágio teria removido seletivamente parte do manto, sem desintegrar o planeta.
O estudo é liderado pelo astrofísico brasileiro Patrick Franco, que destaca que esse tipo de colisão pode ter sido mais comum do que se imaginava. “Esses impactos oblíquos talvez sejam os verdadeiros escultores dos planetas rochosos”, afirmou ele em entrevista ao portal Live Science.
Um planeta que pode ter mudado de endereço
Outro ponto surpreendente da pesquisa é a localização do impacto. As simulações indicam que Mercúrio pode ter se formado entre as órbitas de Vênus e da Terra — uma área muito mais turbulenta nos primórdios do Sistema Solar. Posteriormente, o planeta teria migrado para a sua atual posição, próximo ao Sol.
Essa ideia reforça a visão de que o Sistema Solar passou por um período de grande instabilidade dinâmica, com corpos celestes trocando de órbita, colidindo ou sendo expulsos completamente.
Ainda que a teoria pareça promissora, ela depende de validações futuras. A missão BepiColombo, fruto da colaboração entre as agências espaciais da Europa e do Japão, está a caminho de Mercúrio e deve chegar ao planeta em 2026. Os dados coletados poderão confirmar — ou refutar — as previsões feitas pelas simulações.
Enquanto isso, Mercúrio permanece um enigma, mas agora com uma nova hipótese que não só ajuda a explicar suas características únicas, como também amplia nossa compreensão sobre a complexa formação dos planetas rochosos.
[Fonte: Olhar digital]