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Ciência

Os oceanos do planeta absorveram calor em nível recorde pelo nono ano seguido — e o excesso de energia já está mudando o clima, os mares e a vida marinha

Um novo relatório científico mostra que, em 2025, os oceanos acumularam mais calor do que em qualquer outro ano da história recente. O fenômeno intensifica tempestades, acelera o derretimento de gelo e empurra os recifes de coral para um ponto crítico, com impactos globais cada vez mais difíceis de conter.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Os oceanos da Terra estão funcionando como um enorme amortecedor térmico — e estão chegando ao limite. Pelo nono ano consecutivo, a quantidade de calor acumulada nos mares atingiu um novo recorde, segundo um estudo publicado na revista Advances in Atmospheric Sciences. O dado mais impressionante ajuda a dimensionar o problema: a energia adicional absorvida pelos oceanos em 2025 equivale à explosão de cerca de 365 milhões de bombas atômicas do tipo Hiroshima.

O relatório, assinado por 55 cientistas de diferentes países, aponta que essa tendência contínua está intensificando eventos climáticos extremos, acelerando a elevação do nível do mar e desestabilizando ecossistemas marinhos inteiros. A causa, segundo os autores, é clara e direta: o aumento persistente das emissões de gases de efeito estufa.

Os oceanos como o grande “sumidouro” de calor do planeta

Cerca de 90% do excesso de calor gerado pelo aquecimento global não fica na atmosfera. Ele é absorvido pelos oceanos, que funcionam como o principal reservatório térmico do sistema climático da Terra. Esse papel, embora tenha evitado aumentos ainda mais rápidos da temperatura do ar, cobra um preço alto.

Quando os oceanos aquecem, liberam mais umidade e energia para a atmosfera, criando as condições ideais para tempestades mais intensas, chuvas extremas e ciclones mais destrutivos. O estado térmico dos mares, portanto, não é um detalhe técnico: ele influencia diretamente o clima regional e global.

Para calcular o calor acumulado em 2025, os pesquisadores analisaram variações de temperatura nos primeiros 2.000 metros de profundidade dos oceanos. O resultado mostrou um aumento de aproximadamente 23 zettajoules em relação ao fim de 2024 — o suficiente para tornar 2025 o ano mais quente já registrado em termos de conteúdo de calor oceânico.

Um aquecimento que se espalha por quase todo o planeta

O aquecimento não está restrito a uma região específica. Cerca de 14% da área total dos oceanos atingiu seu estado mais quente já registrado, com destaque para o Oceano Austral, partes do Atlântico tropical e sul, o Mar Mediterrâneo e o norte do Oceano Índico.

Quando o recorte é ampliado, o cenário fica ainda mais preocupante: aproximadamente um terço dos oceanos esteve entre os três anos mais quentes da história recente, e mais da metade figurou entre os cinco mais quentes. Para os cientistas, isso mostra que o ganho de calor é cumulativo, persistente e amplamente distribuído.

Tempestades mais fortes e gelo derretendo mais rápido

Esse excesso de energia está “turbinando” eventos extremos ao redor do mundo. Em 2025, chuvas de monção sem precedentes mataram mais de 1.300 pessoas no Sudeste Asiático. Nos Estados Unidos, enchentes repentinas no Texas causaram pelo menos 138 mortes, incluindo dezenas de crianças e monitores em acampamentos de verão.

Ao mesmo tempo, o aquecimento dos oceanos acelera o derretimento de geleiras e do gelo marinho. No Ártico, a extensão máxima anual do gelo atingiu o menor valor desde o início das observações por satélite. Na Antártica, o gelo marinho registrou o terceiro menor máximo anual da história.

Dados recentes também indicam que as calotas de gelo da Groenlândia e da Antártica alcançaram níveis recordes de perda de massa, com estudos sugerindo que partes desses sistemas podem já ter ultrapassado pontos críticos irreversíveis, contribuindo para a elevação contínua do nível do mar.

Corais sob ameaça existencial

Os recifes de coral estão entre as vítimas mais vulneráveis do aquecimento oceânico. Quando a temperatura da água ultrapassa o limite de tolerância desses organismos, eles expulsam as algas simbióticas que garantem sua sobrevivência, entrando em um processo conhecido como branqueamento.

Segundo a NOAA, o mundo vive atualmente o quarto evento global de branqueamento de corais já registrado. Desde janeiro de 2023, cerca de 84% das áreas de recifes do planeta foram expostas a níveis de calor capazes de causar danos severos. Episódios de branqueamento em massa já foram documentados em pelo menos 83 países e territórios.

Um futuro sem trégua — a menos que algo mude

Os autores do estudo são diretos: essa sequência de nove anos de recordes não deve terminar tão cedo. De acordo com os modelos climáticos mais avançados, o conteúdo de calor dos oceanos continuará batendo novos recordes enquanto o mundo não alcançar emissões líquidas zero de gases de efeito estufa.

Ainda estamos longe desse objetivo. Mesmo assim, os pesquisadores ressaltam que reduções rápidas nas emissões podem limitar impactos futuros. Investir em monitoramento oceânico e entender melhor como o calor se redistribui nos mares será essencial para que sociedades consigam se adaptar a uma nova realidade climática — cada vez mais quente, instável e desafiadora.

 

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