Os Estados Unidos continuam acima da média da OCDE em leitura e ciências e próximos da média em matemática. Ainda assim, os resultados do PISA 2025 revelam uma tendência que chama atenção: algumas das pontuações estadunidenses estão entre as mais baixas já registradas pelo país na avaliação. E, antes de interpretar esses números como um retrato definitivo da educação estadunidense, existe uma ressalva metodológica importante.
Os números mostram uma queda que vem de antes
O PISA avalia estudantes de aproximadamente 15 anos em diferentes países e procura medir não apenas o conhecimento adquirido na escola, mas também a capacidade de aplicar esse conhecimento em situações e problemas do mundo real. Em 2025, mais de 760 mil estudantes de 91 países e economias participaram da avaliação.
Nos Estados Unidos, o desempenho médio em matemática e ciências permaneceu estatisticamente semelhante ao de 2022, enquanto a pontuação em leitura caiu. A OCDE também destaca que os resultados estadunidenses de leitura e matemática ficaram abaixo dos registrados em 2018 e entre os níveis mais baixos observados pelo país desde que participa do PISA.
Apesar disso, os Estados Unidos continuam acima da média da OCDE em leitura e ciências e próximos da média em matemática. Em 2025, a pontuação média estadunidense foi de 490 em leitura, contra 461 da OCDE. Em matemática, foi de 465, contra 463 da organização.
Os níveis mínimos de proficiência contam outra parte da história. Cerca de 74% dos estudantes estadunidenses atingiram pelo menos o nível 2 em leitura, contra 69% na média da OCDE. Em matemática, foram 65%, exatamente a média da organização. Em ciências, 78% chegaram ao nível 2 ou superior, contra 74% na OCDE.
O problema aparece com mais clareza quando se olha para a evolução de longo prazo.
'Through the power of not testing our lower-performing students, we've become a top-10 education system!'
Strangely, this is being chalked up to hard work. I guess it's hard work messing up the sampling. https://t.co/ZtZbzYCNJ3
— Crémieux (@cremieuxrecueil) September 8, 2026
A parcela de alunos com dificuldades aumentou
Desde 2015, a proporção de estudantes estadunidenses abaixo do nível 2 aumentou seis pontos percentuais em matemática e sete pontos em leitura. Em ciências, não houve mudança estatisticamente significativa nesse indicador durante o mesmo período.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos continuam apresentando uma parcela considerável de alunos com desempenho muito elevado. Em 2025, 13% dos estudantes estadunidenses atingiram os níveis 5 ou 6 em leitura e também 13% chegaram a esses níveis em ciências. Em matemática, a parcela foi de 8%, igual à média da OCDE.
Isso produz um cenário menos simples do que a manchete “os EUA foram mal no PISA” poderia sugerir. O país combina uma quantidade relevante de estudantes com desempenho avançado com um crescimento da parcela que não alcança as competências consideradas básicas.
E existe ainda uma questão que merece atenção antes de comparar os resultados estadunidenses diretamente com outros países.
A própria OCDE pede cautela com os resultados estadunidenses
A OCDE marcou os Estados Unidos com uma ressalva técnica porque um ou mais padrões de amostragem do PISA 2025 não foram cumpridos. A entidade informa que a taxa de participação das escolas e dos estudantes ficou abaixo dos parâmetros previstos e que não é possível descartar a possibilidade de viés nos resultados.
O problema é especialmente relevante porque a pesquisa depende de uma amostra que precisa representar adequadamente a população de estudantes de 15 anos. Nos EUA, 4.625 alunos participaram da avaliação, representando aproximadamente 3,58 milhões de jovens dessa faixa etária.
Além disso, mais de 40% dos estudantes participantes não responderam ao questionário destinado a coletar informações sobre o contexto de aprendizagem. Por esse motivo, a OCDE não incluiu resultados baseados nesses questionários na análise estadunidense.
Isso não significa que as pontuações de desempenho devam simplesmente ser descartadas. Significa que elas precisam ser interpretadas com uma margem de cautela maior do que a habitual.
Os números também fazem parte de um problema mais amplo. O próprio PISA 2025 registrou as médias mais baixas da história da OCDE em leitura e matemática, mostrando que a questão não está restrita aos Estados Unidos.
O retrato estadunidense, portanto, tem duas camadas: há uma deterioração de longo prazo em leitura e matemática que merece investigação, mas também existem limitações na amostra de 2025 que impedem tratar os resultados como uma fotografia perfeitamente precisa de todos os estudantes estadunidenses.
O dado mais interessante talvez esteja justamente nessa combinação: o desempenho caiu em algumas áreas, mas entender por que isso aconteceu exige mais do que olhar para uma única edição do PISA.