Pular para o conteúdo
Ciência

Ozempic pode fazer mais do que emagrecer: estudo sugere que o remédio pode reduzir mortes por câncer colorretal

Um novo estudo da Universidade da Califórnia indica que pessoas com câncer colorretal que usam medicamentos com GLP-1, como o Ozempic, têm metade do risco de morrer em cinco anos. Embora os resultados sejam preliminares, cientistas acreditam que o fármaco pode ajudar a prevenir mortes associadas a tumores ligados à obesidade.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

O Ozempic, conhecido mundialmente como o “remédio do emagrecimento”, pode esconder um efeito ainda mais surpreendente: aumento da sobrevivência ao câncer. Pesquisadores descobriram que pacientes com câncer colorretal que faziam uso de terapias baseadas em GLP-1 tinham maior chance de viver mais tempo. A hipótese agora é que os benefícios metabólicos do medicamento possam se estender ao combate de doenças graves, incluindo certos tipos de tumor.

Um possível efeito protetor inesperado

Cientistas da Universidade da Califórnia, em San Diego, analisaram registros médicos de cerca de 6 mil pessoas diagnosticadas com câncer colorretal em hospitais do sistema universitário.
Os resultados, publicados na revista Cancer Investigation, mostraram que pacientes que tomavam medicamentos da classe GLP-1 — como semaglutida (presente no Ozempic e Wegovy) — tinham metade do risco de morrer em cinco anos em comparação aos que não usavam o tratamento.

Entre os usuários de GLP-1, 15,7% morreram no período, contra 37,1% entre os não usuários. Mesmo após ajustes por idade, índice de massa corporal e gravidade do câncer, o uso dos medicamentos continuou associado a uma maior taxa de sobrevivência.

Como agem os remédios à base de GLP-1

Os medicamentos com GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1) imitam um hormônio natural responsável por regular o apetite e o nível de glicose no sangue. Por isso, se tornaram os fármacos mais eficazes para tratar diabetes tipo 2 e obesidade.

Mas as descobertas recentes sugerem que seus benefícios podem ir muito além da perda de peso. Estudos anteriores já haviam mostrado que o tratamento reduz o risco de doenças cardiovasculares e melhora marcadores inflamatórios. Agora, o foco se volta para possíveis efeitos anticancerígenos.

Câncer colorretal e obesidade: uma ligação perigosa

A obesidade é um dos fatores de risco mais fortes para o câncer colorretal. Pessoas com IMC acima de 30 têm maior probabilidade de desenvolver tumores e menor taxa de sobrevivência após o diagnóstico.
Por isso, a equipe da Universidade da Califórnia decidiu investigar se a perda de peso e o controle glicêmico promovidos pelos GLP-1 poderiam influenciar diretamente os desfechos da doença.

Os dados sugerem que o maior benefício foi observado em pacientes com obesidade severa (IMC acima de 35), reforçando a ideia de que o impacto metabólico do tratamento pode ser decisivo.

Correlação não significa causalidade

Apesar dos resultados animadores, o estudo é observacional, ou seja, não comprova uma relação direta de causa e efeito entre o uso de GLP-1 e a redução de mortes por câncer.
Os autores alertam que outros fatores, como melhor controle glicêmico, perda de peso e acesso a cuidados médicos de qualidade, também podem ter contribuído para o resultado.

Ainda assim, experimentos em laboratório já indicam que os GLP-1s podem inibir o crescimento de células cancerígenas e alterar o microambiente tumoral, dificultando a progressão dos tumores.

Próximos passos: testar a hipótese em larga escala

Diante da expressiva redução nas taxas de mortalidade observadas, os cientistas defendem a realização de ensaios clínicos randomizados para confirmar se o Ozempic e outros medicamentos semelhantes realmente aumentam a sobrevida de pacientes com câncer, especialmente em tumores relacionados à obesidade.

Se comprovado, o GLP-1 poderá se tornar não apenas um aliado contra o excesso de peso e o diabetes, mas também um novo recurso terapêutico contra o câncer — algo impensável quando o medicamento foi lançado.

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados