A discussão sobre emissões de gases de efeito estufa ganhou novo fôlego no Brasil após a realização da COP 30, em Belém, em novembro de 2025. Diferentemente de economias fortemente industrializadas, o Brasil tem na mudança do uso da terra — especialmente no desmatamento — sua principal fonte de emissões. Um estudo recente publicado na revista Science of the Total Environment reforça esse diagnóstico e aponta um caminho claro: sem zerar o desmatamento, o país dificilmente cumprirá a meta de neutralidade climática até 2050.
O que mostram os dados mais recentes
A pesquisa utilizou a plataforma Climate TRACE, que combina diretrizes do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima com imagens de satélite e modelos de inteligência artificial para estimar emissões e remoções de CO₂ em escala global, inclusive por município.
Entre 2015 e 2022, as emissões associadas ao desmatamento no Brasil giraram em torno de 1 gigatonelada de CO₂ por ano (1 Gt CO₂/ano). Para comparação, o setor agropecuário respondeu por cerca de 0,72 Gt CO₂ anuais, enquanto energia e transportes somaram aproximadamente 0,2 Gt CO₂ por ano — valores relativamente estáveis no período.
O dado mais relevante, porém, está no balanço líquido: quando se subtraem as remoções naturais promovidas pela vegetação via fotossíntese das emissões totais, o resultado varia bastante conforme as condições ambientais e o ritmo do desmatamento. Em 2021, por exemplo, as emissões líquidas chegaram a 2,92 Gt CO₂. Já em 2022, caíram para 0,43 Gt.
O poder da remoção natural de carbono

As florestas e formações vegetais brasileiras exercem papel crucial na absorção de CO₂. A capacidade de remoção depende de fatores como regime de chuvas, temperatura e integridade dos ecossistemas.
O estudo indica que, se as emissões associadas ao desmatamento tivessem sido zeradas, cinco dos oito anos analisados teriam apresentado balanço negativo — ou seja, o Brasil teria removido mais carbono da atmosfera do que emitido.
Isso mostra que o país já possui uma vantagem estrutural graças à extensão de seus biomas. O desafio está em preservar essa capacidade.
Todos os biomas contam — não só a Amazônia
Embora a Amazônia concentre grande parte das atenções, o estudo destaca que outros biomas também desempenham papel estratégico.
A Caatinga, por exemplo, mostrou significativa capacidade de remoção de CO₂ em anos com regime de chuvas favorável. O Cerrado, além de sua relevância climática, é fundamental para a segurança alimentar do país. Já Mata Atlântica e Pampa também contribuem para o equilíbrio ambiental e precisam de políticas específicas de conservação.
O ponto central é claro: a neutralidade climática brasileira depende da soma de todos esses ecossistemas.
O que significa ter um “bom balanço” climático

O balanço de gases de efeito estufa corresponde à diferença entre o que o país emite e o que consegue remover da atmosfera. Quando o resultado é negativo, há mais captura do que emissão — o cenário ideal do ponto de vista climático.
O estudo reforça que o Brasil poderia alcançar esse equilíbrio de forma recorrente caso eliminasse o desmatamento ilegal e reduzisse drasticamente a degradação ambiental.
Caminhos para o Net Zero
Algumas políticas já previstas nas metas nacionais — como plantio direto e sistemas agroflorestais — mostram que é possível conciliar conservação com produtividade agrícola. No entanto, os dados indicam que essas medidas, isoladamente, não bastam.
A meta assumida no âmbito do Acordo de Paris exige neutralidade até 2050. Para isso, o controle rigoroso do desmatamento é condição indispensável.
O Brasil tem ativos naturais capazes de colocá-lo em posição privilegiada na transição climática global. Mas essa vantagem só se materializa com fiscalização efetiva, políticas consistentes e preservação contínua dos biomas.
O recado da ciência é direto: sem floresta em pé, não há Net Zero possível.
[ Fonte: The Conversation ]