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Ciência

Parece ficção científica, mas é real: o James Webb detecta uma molécula associada à vida em um planeta a 124 anos-luz — e reacende o debate sobre vida fora da Terra

Uma observação do telescópio espacial James Webb identificou sinais de uma molécula que, na Terra, só é produzida por processos biológicos. O achado ocorreu no exoplaneta K2-18b, na zona habitável de sua estrela. Não é prova de vida — mas é um dos indícios mais intrigantes já encontrados.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, a busca por vida extraterrestre oscilou entre entusiasmo e frustração. De supostos canais em Marte às análises das sondas Viking nos anos 1970, a ciência aprendeu a ser cautelosa. Agora, um novo capítulo se abre com dados do telescópio espacial James Webb, em operação desde 2022, que detectou sinais de uma molécula potencialmente biológica em um planeta fora do Sistema Solar.

A molécula que chamou a atenção dos cientistas

Cosmos Molecula
© Milky Way’s Galactic Core Center – Wikipedia

O planeta em questão é o K2-18b, localizado a 124 anos-luz da Terra. Ele orbita uma estrela anã vermelha na constelação de Leão e foi descoberto em 2015 pelo telescópio espacial Kepler. Desde então, tornou-se alvo frequente de estudos por estar na chamada zona habitável — região onde a temperatura pode permitir a existência de água líquida.

O novo estudo, publicado na revista The Astrophysical Journal Letters, apresenta indícios da presença de dimetil sulfeto (DMS) na atmosfera do planeta. Na Terra, essa molécula é produzida quase exclusivamente por organismos vivos, especialmente pelo fitoplâncton marinho e microrganismos aquáticos.

A detecção foi feita com o auxílio do James Webb Space Telescope, que utilizou seu espectrômetro de infravermelho médio para analisar a luz da estrela durante o trânsito do planeta — momento em que parte da luz atravessa a atmosfera de K2-18b. Foram mais de oito horas adicionais de observação para refinar os dados.

O que é o dimetil sulfeto — e por que ele importa

O dimetil sulfeto é uma molécula orgânica contendo enxofre. Em nosso planeta, sua principal fonte é biológica. Não há, até o momento, processos abióticos conhecidos capazes de produzi-lo em grande escala nas condições terrestres.

É justamente por isso que sua possível presença em outro mundo causa tanto interesse. Se confirmado, poderia representar uma “bioassinatura” — um sinal químico potencialmente associado à atividade biológica.

O estudo foi liderado pelo astrofísico Nikku Madhusudhan, da Universidade de Cambridge. Ele enfatiza que não há confirmação definitiva da molécula. A assinatura espectral observada é consistente com DMS, mas também pode corresponder a uma substância semelhante, como o dimetil dissulfeto (DMDS). A distinção exige mais dados.

Três perguntas antes de falar em vida

A comunidade científica mantém cautela. Antes de considerar o DMS como evidência sólida de vida, três questões precisam ser respondidas:

Primeiro, o sinal detectado é real ou pode ser ruído instrumental?
Segundo, é possível confirmar com segurança que se trata de DMS e não outra molécula?
Terceiro — e mais complexo — existe algum processo químico não biológico capaz de gerar essa substância nas condições de K2-18b?

A astrofísica Sara Seager, do MIT, já destacou em outras pesquisas que a terceira pergunta costuma ser a mais difícil. Nosso conhecimento sobre química atmosférica em exoplanetas ainda é limitado.

Um mundo “hycean” com possíveis oceanos profundos

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© Pexels

K2-18b é um planeta peculiar. Seu diâmetro é cerca de 2,5 vezes o da Terra e sua órbita dura apenas 33 dias. Modelos atmosféricos sugerem que ele pode ter uma atmosfera rica em hidrogênio e um oceano profundo sob uma espessa camada de gases.

Esse tipo de mundo recebeu o nome de “hycean” — combinação de hydrogen (hidrogênio) e ocean (oceano). Não há equivalente desse tipo no nosso Sistema Solar, o que torna o estudo ainda mais relevante.

Pesquisas anteriores já haviam detectado metano e dióxido de carbono na atmosfera do planeta. A possível presença de moléculas orgânicas complexas amplia o interesse nesse tipo de ambiente.

O que a NASA diz — e o próximo passo

A NASA reforça que a detecção de bioassinaturas é uma tarefa complexa e exige múltiplas observações. A evolução das estrelas e das atmosferas pode alterar sinais químicos ao longo do tempo. Nenhum achado isolado constitui prova de vida.

Além disso, não é possível observar diretamente K2-18b. Toda a informação é inferida por meio da análise do espectro de luz durante os trânsitos planetários — um método poderoso, mas indireto.

Mesmo com as limitações, o avanço é significativo. O James Webb representa um salto tecnológico na capacidade de estudar atmosferas de mundos distantes. Se novas observações confirmarem o sinal e descartarem alternativas abióticas, estaremos diante de uma das descobertas mais transformadoras da história da ciência.

Por enquanto, a prudência continua sendo a regra. Mas uma coisa é certa: a busca por vida fora da Terra nunca esteve tão próxima de dados concretos — e tão distante de respostas definitivas.

 

[ Fonte: Diario Ok ]

 

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