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Ciência

Pesquisadores descobrem lógica matemática em antigo calendário maia

Pesquisadores acreditam ter decifrado a lógica matemática por trás de um misterioso manuscrito maia. O documento sugere um sistema sofisticado capaz de prever eclipses usando ciclos lunares complexos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Entre os muitos vestígios das civilizações antigas, poucos despertam tanta curiosidade quanto certos manuscritos que sobreviveram ao tempo quase por acaso. Um deles, criado há séculos na Mesoamérica, intriga pesquisadores desde que chegou à Europa. Durante muito tempo, suas páginas pareciam conter apenas símbolos indecifráveis. Agora, um novo estudo sugere que ali pode estar escondido um sistema astronômico surpreendentemente preciso.

Um manuscrito antigo que observava o céu com precisão

O chamado Códice de Dresden é considerado um dos registros mais importantes da astronomia maia.

Produzido em papel feito da casca de árvore, o documento reúne tabelas complexas relacionadas aos movimentos do Sol, da Lua e do planeta Vênus.

Entre essas seções, uma em especial sempre chamou a atenção dos pesquisadores: a chamada tabela de eclipses.

Essa tabela descreve um ciclo que abrange 405 meses lunares, algo que por décadas gerou uma pergunta difícil de responder.

Como uma civilização antiga, sem telescópios ou instrumentos modernos, poderia manter um sistema tão preciso ao longo de gerações?

Recentemente, dois pesquisadores decidiram revisitar esse enigma.

Os cientistas John Justeson e Justin Lowry, ligados à State University of New York, analisaram novamente os cálculos presentes no manuscrito.

O estudo foi publicado na revista científica Science Advances.

Segundo os autores, a chave do sistema não estava apenas na observação do céu, mas em uma estratégia matemática engenhosa.

Em vez de iniciar novas tabelas quando um ciclo terminava, os astrônomos maias aparentemente sobrepunham diferentes ciclos lunares.

Esse método permitia corrigir pequenos desvios acumulados ao longo do tempo.

O método de ciclos sobrepostos que mantinha a precisão

De acordo com a nova análise, os maias utilizavam intervalos específicos para reiniciar os cálculos dentro da tabela.

Esses pontos de reinício estavam associados a ciclos conhecidos hoje pelos astrônomos modernos.

Entre eles estão períodos de 223 meses lunares e 358 meses, que correspondem a padrões naturais de repetição de eclipses solares e lunares.

Ao reiniciar os cálculos nesses intervalos, os antigos observadores conseguiam alinhar novamente as previsões com o movimento real dos astros.

O resultado era um sistema que evitava o acúmulo de erros ao longo das décadas.

Esse mecanismo, descrito pelos pesquisadores como “tabelas sobrepostas”, funcionaria como uma espécie de recalibração periódica.

Em outras palavras, os maias não apenas registravam eclipses.

Eles haviam desenvolvido um método matemático para manter seu calendário sincronizado com os ciclos do céu por muitos séculos.

Essa descoberta sugere um nível de sofisticação científica muito maior do que se imaginava anteriormente.

A matemática sagrada por trás do calendário maia

O sistema de tempo utilizado pelos maias era complexo e combinava diferentes calendários.

Um deles tinha 365 dias e estava relacionado às atividades agrícolas e ao ciclo solar.

Outro possuía 260 dias e era usado para rituais religiosos e previsões consideradas sagradas.

Segundo os autores do estudo, a famosa tabela de 405 meses lunares poderia ter funcionado como um ponto de ligação entre esses dois sistemas.

Os pesquisadores destacam um detalhe matemático intrigante.

Se 49 meses lunares equivalem aproximadamente a 1.447 dias, então 405 meses representam o primeiro múltiplo que se ajusta ao ciclo de 260 dias utilizado no calendário ritual.

Essa coincidência sugere que os cálculos não eram aleatórios.

Ao contrário, indicam uma tentativa deliberada de integrar observação astronômica e significado simbólico dentro de um mesmo sistema.

Para os pesquisadores, isso revela uma forma sofisticada de pensar o tempo.

A astronomia maia não separava ciência e espiritualidade.

Os movimentos do céu eram interpretados como parte de uma ordem cósmica que conectava fenômenos naturais e rituais humanos.

Um documento que sobreviveu por acaso

O Códice de Dresden chegou à Europa após a conquista das Américas e acabou preservado na biblioteca da cidade alemã que lhe deu o nome.

Seu destino foi excepcional.

Grande parte dos manuscritos maias foi destruída durante o período colonial.

Por isso, os poucos códices sobreviventes são considerados fontes raríssimas para compreender o conhecimento científico dessas civilizações.

Graças a esse documento, os pesquisadores puderam reconstruir parte de uma tradição astronômica extremamente avançada.

Hoje sabemos que os maias não observavam o céu apenas por motivos religiosos.

Eles também buscavam identificar padrões e ciclos previsíveis nos movimentos dos astros.

Essa nova interpretação do códice reforça a ideia de que a civilização maia possuía uma compreensão matemática do cosmos comparável às primeiras tradições astronômicas da Eurásia.

Mais do que prever eclipses, esses cálculos revelam algo ainda mais profundo.

Mostram que, em diferentes partes do mundo, sociedades antigas compartilhavam a mesma ambição intelectual: decifrar o funcionamento oculto do universo.

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