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Tecnologia

Por que confiamos mais em podcasts do que nas redes sociais — e se essa confiança é realmente merecida

Enquanto a confiança nas redes sociais despenca, os podcasts vivem uma era dourada de credibilidade e popularidade. Mas pesquisas mostram que, apesar da aparência de autenticidade, eles também podem disseminar desinformação e discurso tóxico. A pergunta é: quem está cuidando da verdade?
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Tempo de leitura: 3 minutos

A confiança pública nas redes sociais atingiu um dos níveis mais baixos já registrados. De acordo com o Ethics Index 2025, do Governance Institute of Australia, um em cada quatro australianos considera as redes sociais “muito antiéticas”. O Digital News Report 2025 confirma a tendência, apontando desconfiança generalizada em relação às notícias compartilhadas nas plataformas digitais.

Essa perda de credibilidade não é exclusiva da Austrália: o Edelman Trust Barometer 2025, baseado em 30 mil entrevistas em 28 países, revela queda global de confiança nas empresas de mídia social. Mas, curiosamente, outro formato digital parece escapar dessa crise: os podcasts.

Por que o público desconfia das redes sociais

Redes Sociales P
© Panos Sakalakis – Unsplash

As redes sociais revolucionaram a comunicação e a participação cívica, mas também trouxeram efeitos colaterais profundos. Diversos estudos mostram que informações falsas e sensacionalistas circulam mais rápido que notícias verdadeiras, amplificando o ódio, a polarização e a desinformação.

Além dos danos coletivos, há impactos individuais. Pesquisas associam o uso excessivo das redes a aumentos de depressão, ansiedade e sofrimento psicológico, principalmente entre jovens.

Em 2021, a ex-funcionária do Facebook Frances Haugen revelou documentos internos que mostravam o efeito negativo do Instagram sobre a saúde mental de adolescentes. O caso reacendeu o debate sobre a responsabilidade ética das plataformas — e mostrou que, muitas vezes, as empresas sabem dos danos, mas não agem.

Podcasts: o “porto seguro” digital?

Enquanto as redes sociais sofrem um colapso de credibilidade, os podcasts vivem o oposto. Mais de metade dos australianos acima de 10 anos escuta podcasts regularmente, e líderes políticos já os utilizam como parte de suas campanhas eleitorais.

Por que tanto prestígio? Uma das razões é o modo de consumo: os ouvintes escolhem o que querem ouvir, sem o bombardeio constante de conteúdo imposto por algoritmos. Os episódios costumam ser mais longos e aprofundados, favorecendo discussões nuançadas em vez de frases virais.

Pesquisas sugerem que os podcasts criam uma sensação de intimidade e autenticidade. O público desenvolve laços de confiança com os apresentadores, percebendo-os como figuras próximas e honestas. Mas essa relação pode ser enganosa.

Quando a confiança vira armadilha

Um estudo da Brookings Institution, que analisou mais de 36 mil episódios de podcasts políticos, revelou que 70% continham pelo menos uma afirmação falsa ou não verificada. Outras pesquisas apontam que muitos programas usam linguagem agressiva e polarizadora — tão ou mais tóxica que a encontrada nas redes sociais.

Ou seja: o formato pode parecer mais ético e humano, mas isso não o torna automaticamente confiável. A ausência de filtros editoriais e a facilidade de publicação transformam o podcast em um espaço fértil tanto para jornalismo de qualidade quanto para desinformação sofisticada.

Rumo a uma confiança crítica

O problema não está apenas nas plataformas, mas em como confiamos nelas. Nenhum meio digital deve ser aceito — ou rejeitado — cegamente. É preciso educação midiática para avaliar criticamente qualquer tipo de informação, seja um clipe do TikTok ou um episódio de podcast de duas horas.

Governos e empresas têm parte da responsabilidade. O governo australiano, por exemplo, defende que as plataformas digitais têm “dever de cuidado” com seus usuários, o que inclui limitar a disseminação de conteúdo nocivo.

Mas leis e regulações só funcionam se as empresas forem transparentes sobre como moderam conteúdo, quem financia os programas e como os algoritmos promovem certos temas. O mesmo vale para serviços de streaming e podcasts, que também podem ser manipulados para espalhar narrativas enganosas.

Entre ceticismo e engajamento

Reconstruir a confiança pública exigirá usuários mais céticos, plataformas mais éticas e sistemas de responsabilização reais. Em última análise, o desafio não é escolher em quem confiar, mas aprender a verificar tudo o que se consome.

Na era da hiperconectividade, confiar demais é tão perigoso quanto não confiar em nada. A melhor defesa é o pensamento crítico — e a consciência de que, na internet, qualquer um pode dizer qualquer coisa.

 

[ Fonte: The Conversation ]

 

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