Criado em 2015 para facilitar a comunicação entre gamers, o Discord se transformou em algo muito mais complexo — e preocupante. Sua estrutura permite criar comunidades fechadas e pouco vigiadas, um terreno fértil para conteúdos extremos e ações criminosas. Casos recentes no Brasil reacenderam o debate sobre o papel da plataforma na radicalização online.
Crimes que chocam — e acontecem ao vivo
⚠️ ALERTA DE CONTEÚDO SENSÍVEL:
Reportagem do Fantástico mostrou como comunidades extremistas no Discord ameaçam crianças e adolescentes.
A polícia prendeu um dos líderes desse grupo criminoso, que se intitulava "O Hitler da Bahia". pic.twitter.com/JgRAeEHanV
— Sleeping Giants Brasil (@slpng_giants_pt) April 7, 2025
Um dos casos mais brutais aconteceu sob os olhos de 200 pessoas conectadas a um servidor do Discord. Um homem torturava um cachorro em tempo real, incentivado por mensagens que pediam mais crueldade. Ao fim, o animal foi morto a tiros. O delegado Alesandro Barreto, do Ciberlab do Ministério da Justiça, acompanhou o caso: “Parecia um jogo, como se ele estivesse passando de fase”.
Esse tipo de cena vem se tornando comum. Em maio de 2025, o Discord foi usado para planejar um ataque a jovens e pessoas LGBTQIA+ durante um show de Lady Gaga no Rio de Janeiro. Casos semelhantes já haviam sido registrados em investigações sobre atentados contra pessoas em situação de rua e até em crimes envolvendo apologia ao nazismo e pornografia infantil.
Segundo a ONG Safernet, as denúncias envolvendo o Discord aumentaram 172,5% no primeiro trimestre de 2025, com destaque para crimes como apologia à violência, homofobia e exploração sexual infantil.
O que torna o Discord tão propício a abusos?
Especialistas apontam que a arquitetura da plataforma favorece o radicalismo. Diferente de redes como TikTok ou Instagram, o Discord funciona com comunidades fechadas, os chamados servidores. É como um clube privado: você precisa ser convidado para entrar e, muitas vezes, até passar por “entrevistas” e períodos de teste.
Esses grupos se organizam de forma hierárquica, com moderadores, líderes e até “cidadãos de primeira classe”. Em muitos casos, o conteúdo não é criado para viralizar, mas para circular apenas entre os membros — o que dificulta o rastreio externo e torna os crimes ainda mais difíceis de detectar.
Além disso, a moderação é descentralizada: os próprios donos dos servidores são os responsáveis por monitorar os conteúdos. Como ironiza a pesquisadora Tatiana Azevedo, “é como dar a chave do galinheiro para a raposa”. Se o administrador é cúmplice ou autor dos abusos, não há qualquer freio interno.
Um ciclo que se alimenta entre redes
Pesquisadores como João Victor Ferreira, da Universidade de Brasília, explicam que o Discord não opera sozinho nesse processo de radicalização. O conteúdo extremo costuma começar em outras redes mais abertas e depois migra para o ambiente fechado da plataforma.
“Esses grupos identificam potenciais interessados em vídeos com discursos de ódio e os convidam para servidores privados. Lá dentro, o processo de cooptação é mais intenso e progressivo”, afirma Ferreira.
O problema se agrava porque muitas transmissões ao vivo não ficam salvas. Isso dificulta investigações, já que as provas somem junto com a live. E, mesmo que o Discord diga adotar uma política de tolerância zero, especialistas alertam para uma deficiência de ação preventiva e falta de mecanismos eficazes de moderação em tempo real.
Pressão por regulação e resposta da plataforma
Diante da escalada de crimes, o deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP) solicitou ao Ministério Público Federal a suspensão do Discord no Brasil. Já a plataforma, em resposta à BBC News Brasil, declarou estar sendo mal interpretada e reforçou sua cooperação com as autoridades brasileiras, incluindo a operação Fake Monster, no show da Lady Gaga.
O Discord também afirmou que contratou equipes especializadas para o mercado brasileiro, e que seus moderadores são instruídos a seguir rígidas diretrizes contra conteúdos ilegais.
No entanto, como resume Tatiana Azevedo, “a realidade é que as piores atrocidades ocorrem em tempo real, dentro de grupos fechados, com quase nenhum controle”. Enquanto isso, jovens continuam sendo aliciados por discursos extremistas travestidos de piadas, memes e “lulz” — o riso cúmplice do horror.
Fonte: G1.Globo