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Quando confiar virou exceção: o retrato inquietante da sociedade atual

Um novo relatório internacional revela um dado inquietante: a maioria das pessoas já não confia em quem é diferente. Um sinal silencioso de que o mundo começa a se fechar sobre si mesmo.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Não houve um colapso visível, nem uma crise única capaz de explicar tudo. A mudança é mais sutil. Ela aparece em conversas interrompidas, em decisões políticas endurecidas, em relações profissionais cada vez mais cautelosas. Aos poucos, confiar no outro deixou de ser um gesto automático. Um novo estudo global mostra que algo profundo está se transformando na forma como convivemos — e o impacto pode ser muito maior do que parece à primeira vista.

Quando a confiança deixa de ser um instinto

Os dados mais recentes do Edelman Trust Barometer 2026 desenham um retrato inquietante. Em uma pesquisa com 37.500 pessoas em 28 países, sete em cada dez afirmaram não confiar em indivíduos que possuem valores, informações, origens ou experiências de vida diferentes das suas. Não é uma exceção estatística. É um padrão.

O relatório descreve esse fenômeno como “insularidade social”: comunidades que funcionam como ilhas, onde a confiança é reservada apenas a quem se parece conosco. Não se trata de ideologia pura, mas de medo. Medo de perder estabilidade econômica, identidade cultural, espaço no mercado de trabalho ou perspectivas de futuro.

O resultado é um estreitamento progressivo do diálogo público. Apenas um terço das pessoas declara confiar na maioria dos outros cidadãos. A desconfiança deixa de ser uma reação pontual e passa a ocupar o lugar de comportamento padrão. Em vez de curiosidade, cautela. Em vez de abertura, retração.

Essa mudança não se expressa, na maioria das vezes, como ódio explícito. Ela surge como preferência silenciosa: escolher os semelhantes, evitar os diferentes, desconfiar antes mesmo de conhecer. Não é xenofobia clássica, mas cria fronteiras invisíveis tão eficazes quanto muros físicos.

Do isolamento social ao recuo das nações

A mesma lógica se projeta sobre a política e a economia. O estudo detecta uma valorização crescente do nacionalismo, inclusive em países historicamente abertos à globalização. A conexão internacional passa a ser vista como ameaça. A inovação, como risco. A cooperação, como ingenuidade.

A frase que sintetiza essa virada é simples e dura: “Escolhemos o Eu em vez do Nós”.

Esse movimento ajuda a explicar o aumento da rejeição a acordos multilaterais, a hostilidade a instituições internacionais e a preferência crescente por marcas e empresas nacionais. A globalização, que prometia prosperidade compartilhada, hoje desperta insegurança e sensação de perda de controle.

Nada disso surgiu de repente. O relatório mostra que a erosão da confiança vem se aprofundando há 25 anos, com um ponto de inflexão claro após a crise financeira de 2008. Desde então, os grupos de renda mais alta recuperaram parte da confiança em governos e instituições. Os de renda mais baixa, não.

Essa divisão produziu uma brecha estrutural que hoje atinge níveis históricos. Em alguns países, a diferença entre ricos e pobres na percepção de confiança chega a quase 30 pontos. A pandemia, a desinformação e a percepção de desigualdade apenas aceleraram o processo.

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© Unsplash – Timon Studler

Jovens, frustração e o surgimento de um novo clima emocional

Entre os mais jovens, a transformação assume contornos ainda mais delicados. Mais da metade dos entrevistados da Geração Z declarou considerar legítimas formas de ativismo hostil para promover mudanças sociais — incluindo, em certos casos, violência física.

Não se trata apenas de radicalização política. O relatório descreve uma trajetória emocional clara: alarme, raiva e, por fim, uma aceitação sombria marcada pelo isolamento. Inflação persistente, empregos instáveis, medo do impacto da inteligência artificial e a sensação de que o futuro oferece menos oportunidades do que o passado criaram um terreno fértil para a frustração.

As consequências já são visíveis. Em países como Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido, dois terços da população rejeitam o uso de inteligência artificial. A maioria acredita que líderes empresariais ocultam informações sobre perda de empregos. No ambiente de trabalho, 42% prefeririam mudar de área a colaborar com alguém de valores diferentes.

A desconfiança não apenas divide: ela paralisa. Bloqueia políticas climáticas, freia projetos urbanos, dificulta qualquer resposta coletiva a problemas estruturais. Sem confiança, não há cooperação. E sem cooperação, nenhuma solução sustentável se mantém.

O sinal mais preocupante: o desaparecimento do otimismo

Talvez o dado mais inquietante não esteja ligado à política nem à tecnologia. Em nenhum país desenvolvido mais de 23% da população acredita que a próxima geração viverá melhor. O otimismo, motor histórico do progresso social, atingiu níveis mínimos.

Mesmo economias tradicionalmente confiantes registram quedas abruptas na percepção do futuro. O amanhã deixou de ser promessa. Tornou-se incerteza.

O relatório encerra com um alerta direto: se essa tendência não for revertida, a insularidade pode se tornar irreversível. Reconstruir a confiança exigirá liderança, diálogo deliberado e disposição real para enfrentar diferenças.

Porque sociedades raramente se quebram de uma vez. Elas primeiro se fecham.

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