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Tecnologia

Sem espaço em terra e com demanda crescente nas megacidades costeiras, a China decidiu levar a energia solar sobre o mar

O resultado é uma usina gigantesca que pode abastecer milhões de lares.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A corrida energética chinesa já vinha acelerada há anos, mas agora ganhou um novo cenário: o oceano. Diante da falta de espaço próximo aos grandes centros urbanos e da necessidade de ampliar rapidamente a geração limpa, o país decidiu apostar em uma solução ousada. No litoral leste, uma megaestrutura começou a operar e já redefine os limites da engenharia solar no mundo.

A maior usina solar em mar aberto do planeta

Na costa do distrito de Kenli, na cidade de Dongying, província de Shandong, entrou em operação no fim de 2025 um projeto que estabeleceu um novo marco global. Trata-se da maior usina solar em mar aberto do mundo.

Desenvolvida pela estatal China Energy Investment Corporation (CHN Energy), a planta possui capacidade instalada de 1 gigawatt (GW) — potência comparável à de um reator nuclear moderno. É o primeiro projeto fotovoltaico marítimo chinês em escala de gigawatt e, até o momento, o maior do planeta nesse formato.

A dimensão impressiona: são 1.200 hectares ocupados por 2.934 plataformas solares marinhas, cada uma medindo cerca de 60 metros de comprimento por 35 metros de largura. Não são painéis flutuando aleatoriamente. Trata-se de uma infraestrutura robusta, projetada para resistir a condições severas como tempestades, ventos intensos, congelamento da água e até tufões.

Se a energia solar já exige grandes extensões de terreno, no caso chinês a questão espacial tornou-se estratégica.

Por que o mar virou solução energética

A maior parte da demanda industrial chinesa está concentrada na faixa leste do país, onde se encontram províncias densamente povoadas e altamente industrializadas, como Shandong e Jiangsu. No entanto, o potencial solar e eólico mais abundante está no oeste, especialmente no deserto de Gobi e na Mongólia Interior.

Levar essa energia até os grandes centros exige extensas linhas de transmissão de Ultra Alta Tensão, que são caras, atravessam terrenos complexos e apresentam perdas no transporte. Além disso, o governo mantém uma política rígida de preservação de terras agrícolas, limitando o uso de áreas férteis para novos empreendimentos energéticos.

Diante desse cenário, ocupar o mar tornou-se alternativa lógica — ainda que tecnicamente desafiadora. Diferentemente de projetos solares flutuantes instalados em lagos ou reservatórios de águas calmas, como ocorre em alguns países europeus, o mar aberto impõe riscos adicionais: corrosão salina constante, ondas intensas e eventos climáticos extremos.

Superar essas barreiras exigiu engenharia avançada e soluções estruturais específicas para garantir estabilidade e durabilidade.

Energia e produção de alimentos no mesmo espaço

O projeto em Shandong não se limita à geração elétrica. A estrutura foi concebida em modelo híbrido conhecido como aquivoltaico. Sob as plataformas solares, funcionam pisciculturas, permitindo que a mesma área produza energia na superfície e pescado abaixo dela.

Essa integração entre geração renovável e produção de alimentos não é inédita na China. Em Guizhou, por exemplo, há uma usina solar onde, sob os painéis, são cultivados cogumelos — modelo chamado de agrivoltaico. A versão marítima amplia essa lógica para o ambiente costeiro.

A combinação pode otimizar o uso do espaço e criar novas cadeias produtivas, especialmente em regiões onde a disputa por território é intensa.

Impacto energético e climático

Com capacidade de 1 GW, a usina deve gerar aproximadamente 1,78 bilhão de kWh por ano. Essa produção é suficiente para abastecer cerca de 2,6 milhões de residências na região — o equivalente a aproximadamente 60% da demanda local estimada.

Além do fornecimento direto de energia, o impacto ambiental também é significativo. Segundo estimativas da empresa responsável, a operação da planta pode evitar a emissão de cerca de 1,3 milhão de toneladas de dióxido de carbono anualmente.

A iniciativa reforça a estratégia chinesa de expandir rapidamente sua matriz renovável. Nos últimos anos, o país instalou volumes recordes de energia solar — em 2023, por exemplo, adicionou mais capacidade fotovoltaica do que os Estados Unidos instalaram ao longo de toda a sua história.

O avanço sobre o mar indica que a expansão não deve desacelerar tão cedo. Se o projeto de Shandong mantiver custos de manutenção viáveis e desempenho dentro das expectativas, poderá servir de modelo para outras regiões costeiras.

Em um país onde espaço é recurso estratégico e demanda energética cresce em ritmo acelerado, o oceano deixou de ser fronteira natural e passou a ser território energético.

[Fonte: Xataka]

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