A prática transforma um fluido historicamente cercado de tabu em ingrediente de skincare. Para algumas pessoas, o ritual vai além da estética e funciona como um ato simbólico de empoderamento e reconciliação com a menstruação. Só que a ciência não acompanha o hype.
Por que o sangue menstrual entrou na moda do skincare

A ideia do period face mask se apoia em dois pilares: simbolismo e ciência “meia explicada”. Nas redes, criadores defendem que aplicar sangue menstrual no rosto ajuda na regeneração da pele, melhora o viço e fortalece a autoestima.
Parte do argumento vem de um estudo de 2016 que identificou células-tronco no sangue menstrual, além de minerais como zinco, magnésio e cobre — comuns em produtos de skincare. O detalhe que costuma ficar de fora dos vídeos virais é o contexto do estudo: laboratório, ambiente controlado e isolamento celular rigoroso.
Onde começa o risco dermatológico
Fora do laboratório, a realidade muda completamente. O sangue menstrual coletado em casa não é estéril. Ele carrega secreções vaginais, fragmentos do endométrio e microrganismos naturais do trato genital.
Aplicar esse material diretamente na pele pode favorecer infecções bacterianas, fúngicas ou virais. O risco aumenta ainda mais se houver espinhas ativas, cortes ou pequenas lesões no rosto.
Dermatologistas alertam que o skincare com sangue menstrual não tem respaldo científico para uso doméstico. A promessa de regeneração não compensa o potencial de inflamação, acne, dermatite e infecção.
Não confunda com tratamentos médicos famosos
Muita gente tenta comparar o period face mask com o PRP, o Plasma Rico em Plaquetas — tratamento estético usado em consultórios e popularizado por celebridades, como Kim Kardashian no chamado vampire facial.
Mas a comparação não se sustenta. O PRP utiliza sangue venoso do próprio paciente, coletado com material estéril, processado em centrífuga e aplicado por profissionais de saúde. Já o sangue menstrual é uma mistura de sangue, muco e células descartadas pelo corpo. São coisas totalmente diferentes.
O que diz a ciência até agora
Pesquisas com células-tronco derivadas do sangue menstrual existem, sim. Mas elas fazem parte de estudos experimentais, em ambientes controlados, voltados para medicina regenerativa — não para receitas caseiras de skincare.
Especialistas reforçam o alerta: não há evidência de benefício e há risco real de dano à pele.
Tendência, mas não tratamento
Mesmo com todo o simbolismo e apelo nas redes, o recado médico é direto: não faça. Tendências de beleza passam rápido, mas manchas, infecções e cicatrizes podem durar bem mais.
Antes de testar qualquer moda que promete milagres, vale lembrar: quando o assunto é pele, improviso não é autocuidado.
[Fonte: Correio Braziliense]