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Tecnologia

Tecnologia médica brasileira ganha força e mira menos importações

Durante décadas, hospitais brasileiros dependeram fortemente de equipamentos importados para funcionar. Agora, esse cenário começa a mudar. Com apoio de uma nova política industrial, ajustes tributários e avanço tecnológico, a chamada tecnologia médica Made in Brazil surge como aposta estratégica para reduzir importações, fortalecer o SUS e colocar o país em um novo patamar global.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O movimento é liderado pela indústria nacional de dispositivos médicos, que ganhou protagonismo na nova Política Industrial da Saúde lançada pelo governo federal. O objetivo é claro: estimular a produção local de tecnologias essenciais, diminuir a vulnerabilidade externa e garantir maior autonomia ao sistema público de saúde.

Por que a tecnologia médica Made in Brazil virou prioridade

Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (Abimo), a dependência de importações sempre foi um ponto sensível para o setor de saúde. Equipamentos hospitalares, materiais cirúrgicos, produtos de diagnóstico e dispositivos de reabilitação muitas vezes vinham de fora, com custos elevados e riscos logísticos.

Com a nova política industrial, o setor passa a ser tratado como eixo estratégico. A ideia não é isolamento, mas competitividade. Investir em tecnologia médica Made in Brazil significa criar uma indústria capaz de inovar, exportar e competir em mercados altamente exigentes, ao mesmo tempo em que abastece o SUS de forma mais estável.

Exportações mostram que o Brasil já é competitivo

Os números ajudam a explicar o otimismo. Entre janeiro e agosto deste ano, as exportações brasileiras de dispositivos médicos somaram US$ 761,6 milhões, um crescimento de 6,8% em relação ao mesmo período de 2024. Houve avanço em todos os segmentos: reabilitação cresceu 26,6%, odontologia 8,1% e laboratório 6,3%.

Hoje, produtos brasileiros do setor já chegam a mais de 180 países. Europa e Ásia estão entre os mercados mais disputados, e empresas nacionais vêm conquistando registros sanitários complexos, inclusive em países como China e Estados Unidos.

Segundo a Abimo, esse desempenho reflete não só inovação tecnológica, mas também confiança regulatória. Autoridades sanitárias internacionais passaram a reconhecer a qualidade dos produtos brasileiros, o que abre portas para novos contratos e parcerias.

Reforma Tributária pode mudar o jogo para o SUS

Um dos pontos centrais da estratégia envolve a Reforma Tributária. Atualmente, hospitais públicos e filantrópicos têm alíquota zero na compra de dispositivos médicos importados, mas nem sempre contam com o mesmo benefício ao adquirir produtos nacionais.

A equiparação tributária prevista na reforma deve corrigir essa distorção. Com isso, comprar tecnologia médica Made in Brazil passa a ser tão vantajoso quanto importar. Para a indústria, isso cria um ambiente de concorrência mais justo e incentiva investimentos em produção local.

A expectativa é que a medida impulsione segmentos como equipamentos médico-hospitalares, materiais cirúrgicos, produtos de diagnóstico, próteses e dispositivos odontológicos.

O desafio do setor público como comprador

Apesar do avanço nas exportações, a indústria aponta um gargalo importante: o setor público precisa voltar a ser um comprador relevante. Sem demanda interna consistente, inovar se torna mais difícil.

A Abimo defende que o fortalecimento da tecnologia médica Made in Brazil depende de políticas contínuas de compra governamental, modernização hospitalar e previsibilidade regulatória. Sem isso, empresas ficam excessivamente dependentes do mercado externo.

Além disso, a entidade destaca entraves históricos, como a alta carga tributária e a defasagem da tabela de remuneração do SUS, que pressionam margens e limitam investimentos.

Crédito, inovação e modernização hospitalar

Entre as propostas apresentadas ao governo está a criação de linhas de crédito e programas de financiamento voltados à modernização do parque tecnológico hospitalar, com prioridade para equipamentos nacionais.

A lógica é dupla: renovar hospitais públicos e, ao mesmo tempo, estimular a indústria local. Segundo a Abimo, essa estratégia ajuda a reduzir o déficit comercial do setor, gera empregos qualificados e amplia o acesso da população a diagnósticos e tratamentos de qualidade.

Fortalecer a cadeia produtiva de dispositivos médicos, argumenta a entidade, não é apenas uma questão econômica, mas de sustentabilidade do sistema de saúde.

Tecnologia como resposta a cenários adversos

A aposta em inovação também tem ajudado o setor a lidar com crises externas. No primeiro semestre, tarifas impostas pelos Estados Unidos afetaram segmentos como equipamentos médicos, odontologia e reabilitação.

A resposta veio na forma de diversificação de mercados. Mesmo com o tarifaço, o Brasil manteve o volume total de exportações e registrou crescimento de 6,83% no acumulado do ano, além de alta de 15% em agosto na comparação anual.

Europa, Oceania e América Latina ganharam peso, enquanto a China se consolidou como principal destino dos produtos brasileiros na Ásia.

Um passo além da indústria

No fim das contas, investir em tecnologia médica Made in Brazil vai além de reduzir importações. Trata-se de uma política de longo prazo para garantir autonomia, qualidade e acesso à saúde.

Menos dependência externa, mais inovação local e maior previsibilidade para o SUS formam uma equação que pode transformar investimentos públicos em resultados concretos. O desafio agora é manter o ritmo e transformar esse avanço em política permanente de Estado.

[Fonte: CNN Brasil]

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