As redes sociais transformaram a forma como nos conectamos — inclusive dentro dos relacionamentos amorosos. Em um cenário onde o contato digital é constante e o trabalho remoto se tornou rotina, certos comportamentos que antes pareciam inofensivos passaram a gerar desconfiança. Surge, então, o conceito de “microtraição”, uma nova e sutil forma de infidelidade que desafia os limites do que é aceitável entre parceiros.
O que é microtraição?

A microtraição engloba ações aparentemente inocentes, mas que não são compartilhadas com o parceiro e podem despertar sentimentos de deslealdade. A psicóloga australiana Melanie Schilling define o termo como qualquer comportamento fora da relação principal que não se pode contar abertamente. Isso inclui curtir fotos específicas, trocar mensagens íntimas ou até caprichar no visual ao encontrar alguém em particular.
Segundo a psicóloga Abby Medcalf, muitas dessas interações acontecem por mensagens de texto ou redes sociais, criando o que ela chama de “zona escorregadia”, onde a traição emocional começa a tomar forma, mesmo sem contato físico.
Por que isso se tornou tão comum?
Apesar de não ser um fenômeno novo, o microcheating ganhou força com o aumento das interações digitais. William Schroeder, terapeuta e diretor da Just Mind Counseling, afirma que o ambiente do home office facilita esse tipo de comportamento, já que o risco percebido é muito menor.
A ausência de contato físico direto e a praticidade de esconder conversas em aplicativos tornam esse tipo de conduta mais acessível — e, portanto, mais frequente.
Quando o problema realmente começa?
Nem todos os casais enxergam as redes sociais da mesma forma. Para alguns, uma curtida ou comentário pode ser irrelevante. Para outros, pode causar insegurança. O que realmente importa, segundo Schroeder, é o impacto que essas atitudes causam no parceiro: “É traição se seu parceiro não sabe, não gostaria ou se sente mal com isso.”
Medcalf reforça que o julgamento moral não deve ser o foco, mas sim o respeito às preferências individuais. E alerta: tentar controlar o outro ou espionar o celular pode agravar a situação, criando um clima de desconfiança e tensão.
Como conversar sobre isso em casal?
Estabelecer limites claros desde o início é essencial. Schroeder sugere que casais que se conheceram em aplicativos discutam desde cedo o que significa exclusividade: excluir perfis, parar de flertar ou manter conversas íntimas com outras pessoas, por exemplo.
Ele usa uma metáfora simples: “Se você acha que o tanque está cheio, não pensa em parar para abastecer”. O mesmo vale para relacionamentos: é melhor conversar antes que falte combustível emocional.
Se surgirem mudanças de comportamento — como o parceiro passando mais tempo no celular —, o ideal é abordar o assunto com curiosidade e não com acusações. Frases como “Percebi que você está mais no telefone e fiquei preocupado” abrem espaço para uma conversa madura e honesta.
O que a microtraição revela sobre a relação?
Nem sempre a microtraição indica que o relacionamento está condenado. Muitas vezes, ela é uma tentativa de reviver a emoção do início, ou uma busca inconsciente por validação. Schroeder destaca que, mesmo quando não há traição física, reconhecer esses comportamentos pode ser o primeiro passo para transformar a relação.
Em vez de encarar como uma sentença de fim, o microcheating pode ser uma oportunidade de reconstrução. Perguntas como “Por que estou fazendo isso?” podem ajudar a compreender necessidades não atendidas e abrir caminho para uma conexão mais profunda entre o casal.
Fonte: Infobae