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Ciência

Um cientista guardou onze caracóis em 1991 para evitar o desaparecimento da espécie. Três décadas depois, mil deles estão voltando às florestas do Havaí

O que parecia uma decisão desesperada acabou se transformando em uma das histórias de conservação mais surpreendentes do Pacífico. Os últimos caracóis arbóreos do Havaí sobreviveram em cativeiro durante décadas e agora estão retornando à floresta, recuperando um papel fundamental no ecossistema.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Algumas histórias de conservação parecem improváveis até mesmo para os cientistas que delas participam. O retorno do caracol arbóreo havaiano Achatinella fuscobasis pertence a essa categoria. O que começa a acontecer agora nas florestas de O‘ahu — a reintrodução de uma espécie considerada extinta na natureza — é o resultado de mais de meio século de pesquisas, reprodução em cativeiro e estratégias criadas para enfrentar um dos problemas mais difíceis da biodiversidade moderna: as espécies invasoras.

A situação no início da década de 1990 era crítica. Os caracóis arbóreos do Havaí, um grupo de moluscos endêmicos que evoluíram durante milhões de anos no arquipélago, estavam desaparecendo em um ritmo alarmante. A principal causa não era a perda direta de habitat, mas a introdução de predadores que o ecossistema local nunca havia enfrentado.

Entre esses invasores estavam ratos, camaleões-de-Jackson e um predador particularmente devastador: o caracol-lobo-rosado, uma espécie carnívora introduzida décadas antes com a intenção de controlar outras pragas agrícolas. O resultado foi exatamente o oposto. Esse molusco começou a devorar os caracóis nativos, provocando uma das crises de biodiversidade mais graves do arquipélago.

Nesse contexto, o pesquisador Michael Hadfield, da Universidade do Havaí, tomou uma decisão que hoje é considerada histórica. Em 1991, ele coletou os últimos onze exemplares conhecidos de Achatinella fuscobasis que ainda restavam em O‘ahu. O objetivo não era estudar uma espécie condenada ao desaparecimento, mas tentar algo muito mais ambicioso: salvá-la.

Três décadas de paciência científica

Um cientista guardou onze caracóis em 1991 para evitar o desaparecimento da espécie. Três décadas depois, mil deles estão voltando às florestas do Havaí
© Department of Land and Natural Resources.

O programa de conservação que se seguiu não foi rápido nem simples. Os caracóis arbóreos têm ciclos de reprodução lentos e populações naturalmente pequenas, o que significa que qualquer tentativa de recuperação exige décadas de trabalho.

Os exemplares resgatados foram mantidos em instalações controladas onde os cientistas recriaram cuidadosamente as condições de umidade, temperatura e alimentação das florestas havaianas. O processo foi lento, mas constante. Geração após geração, a população cresceu até alcançar cerca de mil indivíduos em 2024.

Esse número não significa que a espécie esteja fora de perigo, mas representa algo que durante muitos anos parecia impossível: uma população grande o suficiente para tentar o retorno à floresta.

O experimento de devolvê-los à natureza

Um cientista guardou onze caracóis em 1991 para evitar o desaparecimento da espécie. Três décadas depois, mil deles estão voltando às florestas do Havaí
© Ryan Kellman / NPR.

A reintrodução está sendo realizada nas montanhas Ko‘olau, na ilha de O‘ahu. O local escolhido não é uma floresta qualquer, mas um espaço especialmente preparado para proteger os caracóis dos mesmos predadores que quase os levaram à extinção.

Os cientistas chamam o local de “recinto de exclusão”. Trata-se de uma área cercada de aproximadamente um quarto de acre onde barreiras físicas — paredes de polietileno, malhas metálicas de cobre e estruturas inclinadas — impedem o acesso de ratos, répteis invasores e caracóis predadores.

Dentro desse perímetro protegido, os caracóis podem voltar a enfrentar o ambiente natural que durante décadas existiu apenas em simulações de laboratório: chuvas leves, ventos úmidos vindos do Pacífico e a vegetação da floresta tropical.

Muito mais do que um pequeno molusco

Um cientista guardou onze caracóis em 1991 para evitar o desaparecimento da espécie. Três décadas depois, mil deles estão voltando às florestas do Havaí
© Ryan Kellman / NPR.

Embora seu tamanho possa parecer insignificante, esses caracóis desempenham um papel fundamental no ecossistema das florestas havaianas. Eles se alimentam de fungos e algas microscópicas que crescem sobre folhas e troncos, participando de processos essenciais de reciclagem de nutrientes e equilíbrio microbiológico.

Mas sua importância vai além da ecologia. Na cultura havaiana, esses moluscos — conhecidos como kāhuli — fazem parte do imaginário tradicional há séculos. Eles aparecem em cantos antigos, poemas e cerimônias de hula, tornando-se também um símbolo cultural profundamente enraizado na identidade do arquipélago.

Uma vitória… com alertas

O retorno de Achatinella fuscobasis demonstra que, em certos casos, a extinção pode ser revertida quando a ciência atua com tempo e perseverança. No entanto, os pesquisadores alertam que a história dos caracóis havaianos ainda está longe de terminar.

Especialistas estimam que cerca de cem espécies de caracóis nativos do arquipélago podem desaparecer nas próximas décadas se as medidas de conservação e controle de predadores invasores não forem intensificadas.

O pequeno molusco que hoje retorna às florestas de O‘ahu é, nesse sentido, muito mais do que uma curiosidade biológica. Ele representa a prova de algo que a ciência ambiental aprendeu lentamente nas últimas décadas: salvar uma espécie pode levar gerações, mas perdê-la pode acontecer em silêncio e em muito pouco tempo. E por isso, cada caracol que hoje desliza novamente sobre as folhas da floresta havaiana também é um sinal de que a história ainda não está totalmente escrita.

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