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Ciência

Um “cometa verde” faz sua última visita e nunca mais voltará

Um objeto raro cruza o céu nas próximas noites e depois desaparecerá para sempre do Sistema Solar. Com brilho esverdeado e trajetória incomum, ele oferece uma oportunidade única para observadores atentos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O céu noturno costuma repetir seus padrões com precisão quase reconfortante. Planetas retornam, estrelas mantêm suas posições relativas e até alguns cometas reaparecem depois de décadas. Mas nem todos seguem esse roteiro previsível. Um visitante recém-descoberto está prestes a fazer sua única aproximação da Terra antes de partir definitivamente rumo ao espaço interestelar.

O visitante que não voltará

Um “cometa verde” faz sua última visita e nunca mais voltará
© https://x.com/GraceSpaceR/

O protagonista desse encontro é o cometa C/2024 E1 (Wierzchoś), apelidado de “cometa verde” por causa do tom característico de sua coma — a nuvem de gás e poeira que envolve seu núcleo gelado.

Na próxima semana, ele atingirá o ponto de maior aproximação da Terra antes de seguir em uma trajetória sem retorno para fora do Sistema Solar. Descoberto em março de 2024 pelo astrônomo polonês Kacper Wierzchoś, o objeto foi identificado com o auxílio de um telescópio de 1,5 metro no Observatório Mount Lemmon, no Arizona.

Desde então, diversos instrumentos passaram a monitorá-lo, incluindo o poderoso Telescópio Espacial James Webb. As observações revelaram que, ao se aproximar do Sol, o cometa liberou grandes quantidades de dióxido de carbono e outros gases.

Por que ele brilha em verde?

O tom esverdeado que deu fama ao cometa tem explicação química. Quando o objeto se aproximou do Sol e atingiu seu periélio — o ponto mais próximo da estrela — o calor intenso provocou a liberação de moléculas como o carbono diatômico. Sob a ação da radiação solar, essas moléculas emitem um brilho verde característico.

Esse pico de atividade ocorreu quando o cometa estava a cerca de 84 milhões de quilômetros do Sol. Agora, afastando-se gradualmente da estrela, ele segue visível, mas menos ativo do que no auge de seu brilho.

Inicialmente, estimativas sugeriram que o núcleo poderia ter cerca de 13 quilômetros de diâmetro. No entanto, análises mais recentes indicam que esse tamanho pode ter sido superestimado. Novos cálculos devem oferecer uma medida mais precisa nas próximas semanas.

Uma órbita que não permite retorno

Diferentemente de cometas famosos que visitam periodicamente o interior do Sistema Solar, o C/2024 E1 possui uma órbita classificada como hiperbólica. Isso significa que sua trajetória é aberta: ele não completa voltas regulares ao redor do Sol.

Os astrônomos acreditam que ele se originou na distante Nuvem de Oort, uma região repleta de corpos gelados nos limites do Sistema Solar. É possível que sua jornada em direção ao Sol tenha começado há até três milhões de anos. Após essa única passagem pela região interna, ele ganhará velocidade suficiente para escapar definitivamente da influência gravitacional solar.

Apesar da aproximação, não há qualquer risco para a Terra. No ponto mais próximo, o cometa estará a cerca de 151 milhões de quilômetros — distância semelhante à que nos separa do próprio Sol.

Como e quando observar

Para quem deseja tentar observar esse visitante raro, será necessário planejamento. O cometa não é visível a olho nu. A recomendação é utilizar binóculos de alta ampliação ou pequenos telescópios, além de buscar locais afastados da poluição luminosa urbana.

Ele poderá ser visto no início da noite, relativamente baixo no horizonte sudoeste, na constelação do Escultor. A cada dia, surgirá alguns minutos mais cedo, oferecendo uma janela curta, porém preciosa, para observação.

Um destino rumo ao espaço profundo

Após deixar a vizinhança do Sol, o cometa seguirá sua viagem pela Via Láctea por milhões — ou até bilhões — de anos. Eventualmente, poderá cruzar as proximidades de outros sistemas estelares, tornando-se apenas mais um viajante solitário no oceano interestelar.

Fenômenos semelhantes vêm sendo registrados com objetos de fora do Sistema Solar, como o 3I/ATLAS, reforçando a ideia de que o espaço é mais dinâmico do que se imaginava. No caso do C/2024 E1, no entanto, trata-se de uma despedida definitiva.

Para quem gosta de olhar para o céu, esta é uma daquelas raras oportunidades em que sabemos que o espetáculo tem data marcada — e que nunca se repetirá.

[Fonte: Olhar digital]

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