Pular para o conteúdo
Ciência

Um iPhone foi lançado de uma altura absurda e a física explica por que ele sobreviveu

Um iPhone foi lançado de mais de 30 quilômetros de altura e encontrado horas depois ainda funcionando. O segredo da sobrevivência envolve uma velha regra da física.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Imagine soltar um celular de uma altura tão grande que aviões comerciais parecem estar muito abaixo. Agora retire o paraquedas da equação e deixe o aparelho cair sobre uma região selvagem. Foi exatamente isso que aconteceu em um experimento realizado no norte da Europa. O resultado parece desafiar o bom senso, mas existe uma explicação bastante conhecida — e ela começa muito antes de o telefone tocar o chão.

A queda começou onde quase não existe ar

Um iPhone 17 Pro protegido por uma capa foi levado por um balão até mais de 30 quilômetros de altitude antes de ser liberado. O aparelho acabou caindo em uma área florestal no norte da Suécia e, quando a equipe finalmente o encontrou, horas depois, ainda conseguia ligar, fazer chamadas e operar a tela e as câmeras.

O experimento foi realizado pela fabricante de capas RHINOSHIELD em parceria com a empresa aeroespacial britânica Sent Into Space. O resultado foi reconhecido pelo Guinness World Records como a maior queda de um telefone protegido por uma capa sobre um acidente geográfico natural.

A marca registrada foi de 30.607 metros — mais de três vezes a altura do Everest e muito acima da altitude típica de cruzeiro de um avião comercial.

Mas existe uma pegadinha nessa história. O telefone não foi lançado do espaço propriamente dito. A essa altitude, ele ainda estava na estratosfera. E também não passou os 30 quilômetros inteiros acelerando continuamente até o solo.

É justamente aí que uma velha conhecida da física começa a explicar o que aconteceu.

O telefone não continuou acelerando até o chão

Quando um objeto cai, a gravidade faz sua velocidade aumentar. Só que existe outro fator entrando em cena: o ar.

Quanto mais rápido um objeto se movimenta pela atmosfera, maior tende a ser a resistência aerodinâmica. Em determinado momento, essa resistência consegue equilibrar a força da gravidade. O objeto então atinge aquilo que os físicos chamam de velocidade terminal.

A partir daí, ele deixa de acelerar significativamente.

Durante os primeiros momentos da queda, o ar nas grandes altitudes é extremamente rarefeito. Isso permite que o aparelho ganhe velocidade com relativa facilidade. Mas, conforme desce, encontra camadas cada vez mais densas da atmosfera, que aumentam a resistência e reduzem o efeito de uma aceleração contínua.

Isso muda completamente a maneira de imaginar o impacto.

Cair de 30 quilômetros não significa necessariamente chegar ao solo centenas de vezes mais rápido do que alguém que cai de uma altura muito menor. Depois que a velocidade terminal é alcançada, acrescentar mais quilômetros à queda aumenta principalmente o tempo de viagem, e não proporcionalmente a velocidade final.

Além disso, a posição do aparelho durante a descida, sua aerodinâmica e a superfície do impacto também influenciam diretamente o resultado.

iPhone3
© Guinness World Records / RHINOSHIELD / Sent Into Space

O recorde escondia um desafio muito maior

A queda aconteceu sobre o Centro Espacial Esrange, próximo de Kiruna, na Suécia. A instalação possui uma enorme área desabitada destinada a testes, com milhares de quilômetros quadrados, justamente para reduzir os riscos associados a experimentos desse tipo.

Três aparelhos foram preparados para serem liberados em diferentes altitudes: 26, 28 e 30 quilômetros. O telefone que estabeleceu o recorde acabou sendo separado a 30.607 metros, acima da altura inicialmente planejada.

O iPhone fazia parte de uma estrutura especialmente preparada, equipada com câmeras e sistemas de rastreamento. Segundo as regras do recorde, a aerodinâmica da carga foi ajustada para reproduzir o comportamento de um telefone durante a queda, sem permitir o uso de um paraquedas para suavizar o pouso.

Depois da liberação, o GPS ajudou a reduzir a área provável de impacto para um perímetro de aproximadamente dois quilômetros. Mesmo assim, quatro integrantes da equipe precisaram procurar o aparelho durante mais de cinco horas, usando um helicóptero.

Quando finalmente encontraram o telefone, ele foi colocado em uma bolsa de testes. O dispositivo só voltou a ser ligado na presença de um representante do Guinness.

E funcionou.

O impacto não foi o único inimigo

Sobreviver à colisão era apenas uma parte do problema. Durante a subida e a descida, o aparelho também precisou enfrentar temperaturas extremamente baixas, pressão atmosférica muito reduzida e ventos intensos.

A RHINOSHIELD afirma ter realizado anteriormente testes de congelamento e pressão para verificar a resistência dos materiais utilizados.

A capa AirX usada no experimento possui uma estrutura com câmaras de ar projetada para absorver impactos, inspirada no princípio dos airbags. Ela também utiliza um único material, segundo a fabricante, para facilitar a reciclagem.

Ainda assim, é importante colocar o feito em perspectiva. O experimento mostra que aquele aparelho, naquela configuração e naquela queda específica, conseguiu sobreviver. Não significa que qualquer iPhone ou outro celular teria o mesmo resultado ao cair de uma altura semelhante.

No fim, o detalhe mais curioso não está apenas na resistência da capa. Está na própria física.

Depois de determinado ponto, lançar um objeto cada vez mais alto torna a queda muito mais longa, mas não necessariamente transforma o impacto final em algo proporcionalmente mais destrutivo. A atmosfera, silenciosamente, começa a colocar um limite na velocidade.

E foi justamente essa velha regra que ajudou um celular lançado da estratosfera a chegar ao chão com uma chance muito maior de sobrevivência do que a intuição poderia sugerir.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados