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Ciência

Um planeta cinco vezes mais massivo que Júpiter está prestes a perder um alinhamento muito especial

Astrônomos acompanham uma mudança gradual na órbita aparente de um mundo distante. Se o movimento continuar, dentro de poucos anos perderemos uma oportunidade particularmente valiosa de observá-lo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Planetas não percorrem trilhos perfeitamente imóveis ao redor de suas estrelas. Suas órbitas podem mudar de orientação lentamente e, quando observadas durante tempo suficiente, essas alterações deixam de ser apenas previsões matemáticas. É exatamente isso que está acontecendo a cerca de 806 anos-luz da Terra. Um enorme planeta está mudando de posição diante de nossos olhos e, em poucos anos, pode deixar de produzir um dos fenômenos mais úteis para estudá-lo.

Um gigante completa seu ano inteiro em pouco mais de dois dias

O protagonista é TOI-1355 b, um exoplaneta classificado como Júpiter quente.

Ele possui aproximadamente 5,84 vezes a massa de Júpiter e um raio cerca de 1,42 vez maior. Apesar das dimensões impressionantes, está extremamente próximo de sua estrela: completa uma volta inteira em apenas 2,17 dias.

Sua estrela, localizada na constelação de Cefeu, tem aproximadamente duas massas solares.

A órbita também chama atenção por outra característica. Sua excentricidade é próxima de 0,22, um valor relativamente elevado para um Júpiter quente.

Mas foi uma mudança muito mais sutil que despertou o interesse dos astrônomos.

Uma equipe liderada por Noriharu Watanabe, da Universidade de Tóquio, comparou observações realizadas entre 2019 e 2024 pelo telescópio espacial TESS e por instrumentos terrestres.

O planeta continuava passando diante da estrela, mas não cruzava exatamente a mesma região do disco estelar.

Ano após ano, sua trajetória aparente estava se aproximando da borda.

O planeta está chegando cada vez mais perto do limite da estrela

Para medir esse fenômeno, os astrônomos utilizam o chamado parâmetro de impacto, que indica a distância entre a trajetória aparente do planeta e o centro da estrela durante um trânsito.

Em 2019, o valor calculado para TOI-1355 b era de aproximadamente 0,853.

Em 2024, já havia aumentado para 0,928, uma variação estimada em cerca de 0,016 por ano.

Nas observações mais recentes, o trânsito já era praticamente rasante.

Isso significa que, visto da Terra, o planeta está passando cada vez mais próximo da extremidade do disco estelar. Se continuar se deslocando nessa direção, chegará um momento em que sua trajetória deixará de cruzar a estrela por completo.

O mecanismo por trás dessa transformação recebe o nome de precessão nodal.

Uma maneira de imaginá-lo é pensar em um pião. Ele continua girando, mas a orientação de seu eixo muda lentamente.

Algo semelhante ocorre aqui: TOI-1355 b continua dando voltas em torno de sua estrela, enquanto o plano de sua órbita se reorienta gradualmente.

A rápida rotação da própria estrela, estimada em cerca de 80,8 quilômetros por segundo, pode contribuir para esse processo ao produzir um campo gravitacional que não é perfeitamente simétrico.

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Os astrônomos já calculam quando o último trânsito pode acontecer

Se a tendência medida entre 2019 e 2024 continuar, os pesquisadores estimam que os trânsitos poderão desaparecer por volta de meados de 2033.

TOI-1355 b não será destruído, expulso do sistema nem deixará de existir. Ele continuará orbitando normalmente sua estrela.

O que desaparecerá será o alinhamento necessário para que, visto da Terra, o planeta passe diante do disco estelar.

E isso tem consequências científicas.

Quando um exoplaneta transita, bloqueia uma pequena fração da luz de sua estrela. Uma parte dessa luz também atravessa sua atmosfera, carregando informações que podem ser analisadas por espectroscopia.

Sem trânsito, essa oportunidade específica desaparece.

Os próximos anos representam, portanto, uma janela limitada para estudar TOI-1355 b enquanto sua geometria ainda permite esse tipo de observação.

Estamos vendo uma órbita mudar praticamente em tempo real

O caso oferece algo particularmente interessante para a astronomia: a possibilidade de acompanhar uma configuração orbital evoluindo em uma escala de tempo humana.

Normalmente imaginamos as órbitas como elipses desenhadas de maneira permanente ao redor das estrelas. Na realidade, sistemas planetários são ambientes dinâmicos.

Interações gravitacionais, características das estrelas e diferentes mecanismos físicos podem modificar lentamente a orientação dessas trajetórias.

TOI-1355 b transforma essa ideia abstrata em algo observável.

Em poucos anos, os astrônomos registraram seu trânsito migrando em direção à borda da estrela. Se os cálculos estiverem corretos, poderão acompanhar também o momento em que o fenômeno deixar de acontecer.

Depois de 2033, o planeta continuará completando uma órbita a cada 2,17 dias a centenas de anos-luz de distância.

Nós é que teremos perdido a perspectiva privilegiada que, durante algum tempo, permitiu vê-lo passar exatamente diante de sua estrela.

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