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Ciência

Um robô entrou no laboratório de fertilização — e conseguiu executar um procedimento microscópico

Uma tecnologia começou a automatizar um procedimento que exige extrema precisão nos laboratórios de reprodução assistida. Os primeiros resultados mostram até onde essa transformação pode chegar.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A fertilização in vitro sempre dependeu de uma combinação delicada entre medicina, tecnologia e mãos altamente treinadas. Em algumas etapas, movimentos microscópicos podem exigir anos de experiência profissional. Mas uma dessas tarefas começou a mudar de mãos — literalmente. Um sistema robótico conseguiu assumir parte de um procedimento crucial da reprodução assistida e participou de um experimento que terminou da maneira mais concreta possível: com nascimentos.

Um robô assumiu movimentos que exigem precisão microscópica

O marco aconteceu em 2023 e envolveu uma tecnologia desenvolvida pela Overture Life com pesquisadores e especialistas de diferentes instituições.

Apesar de algumas descrições sugerirem uma “fertilização feita por um robô”, a realidade é mais específica. A máquina não realizou sozinha todo o processo de fertilização in vitro (FIV).

Ela automatizou uma etapa conhecida como injeção intracitoplasmática de espermatozoides, ou ICSI.

Nesse procedimento, um único espermatozoide é introduzido diretamente no óvulo por meio de uma micropipeta. Tradicionalmente, o processo depende da habilidade de um embriologista trabalhando diante de um microscópio.

O sistema, chamado ICSIA, automatizou movimentos como o avanço da pipeta, a penetração das estruturas externas do óvulo, a entrada no ovócito e a liberação do espermatozoide.

Depois de testes preliminares, veio um pequeno estudo clínico com óvulos doados.

Dos 14 ovócitos submetidos ao procedimento automatizado, 13 foram fertilizados. No grupo de controle, em que embriologistas realizaram a ICSI manualmente, o resultado foi de 16 fertilizações em 18 ovócitos.

Três blastocistos cromossomicamente normais obtidos no grupo automatizado foram posteriormente transferidos para duas receptoras.

As duas engravidaram e deram à luz um bebê cada.

O experimento mostrou algo maior do que dois nascimentos

Publicado na Reproductive BioMedicine Online, o estudo foi um ensaio piloto pequeno. Portanto, seus resultados não permitem concluir que a técnica automatizada seja superior à ICSI convencional.

A importância estava em outro ponto: demonstrar que uma das tarefas mais delicadas de um laboratório de reprodução assistida podia ser parcialmente automatizada.

Isso abre caminho para uma discussão sobre padronização.

Procedimentos altamente dependentes da habilidade manual podem apresentar variações entre profissionais e laboratórios. Sistemas robotizados poderiam, no futuro, reproduzir determinados movimentos de maneira consistente e reduzir parte dessa variabilidade.

Também existe uma questão econômica.

Santiago Munné, diretor de inovação da Overture Life e um dos envolvidos no desenvolvimento, argumentou que a automação poderia reduzir parte dos custos relacionados à necessidade de profissionais altamente especializados para executar a ICSI.

Desde aquele primeiro experimento, a tecnologia continuou avançando. Em 2026, a Overture anunciou a implementação de sua plataforma ICSI.A em centros de fertilidade de diferentes países, incluindo a Argentina, em um programa voltado à introdução da ICSI automatizada na prática clínica.

Isso, porém, está longe de significar um laboratório completamente independente de humanos.

A máquina automatiza uma etapa, não substitui o tratamento

A FIV envolve uma sequência muito mais ampla de decisões e procedimentos.

Antes da fertilização, há avaliações médicas, estimulação hormonal e coleta dos óvulos. Depois, é necessário acompanhar o desenvolvimento dos embriões, avaliar suas características e decidir, segundo critérios médicos, como proceder com a transferência para o útero.

Idade, condições clínicas, características dos óvulos e espermatozoides e qualidade embrionária estão entre os diversos fatores que podem influenciar as chances de sucesso.

O tratamento também pode representar uma experiência emocionalmente intensa, e algumas pacientes podem se beneficiar de acompanhamento psicológico durante o processo.

Por isso, imaginar um “robô fazendo bebês” simplifica demais o que realmente aconteceu.

A mudança é simultaneamente menor e mais significativa: uma máquina já demonstrou ser capaz de executar movimentos microscópicos fundamentais de uma técnica de reprodução assistida que tradicionalmente dependia das mãos de um embriologista.

Os dois nascimentos não provam que os robôs substituirão especialistas nem que a automação produzirá melhores resultados para todos os pacientes.

Mas mostram que uma fronteira foi atravessada.

E, à medida que robótica, visão computacional e inteligência artificial entram nos laboratórios, algumas das etapas mais delicadas da reprodução humana podem se tornar muito diferentes daquelas realizadas nas últimas décadas.

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