Fotografar a Terra do espaço com grande precisão já não é novidade. O verdadeiro desafio é fazer isso em áreas enormes, repetidamente e sem esperar dias até descobrir que alguma coisa mudou. Incêndios, enchentes, desmatamento, obras e movimentos de infraestrutura podem evoluir rapidamente. A Satellogic acaba de colocar em órbita o primeiro satélite de uma nova família criada para atacar justamente esse problema — e a ambição de longo prazo é chegar a um novo mapa global todos os dias.
Merlin.01 foi ao espaço para enxergar muito mais do que um único alvo
O lançamento ocorreu em 1º de outubro, a partir da Base da Força Espacial de Vandenberg, na Califórnia.
Um Falcon 9 da SpaceX levou a missão Transporter-18, que transportou 130 cargas úteis para uma órbita heliossíncrona, muito utilizada por satélites de observação terrestre.
Entre elas estavam quatro veículos da Satellogic.
Um dia depois do lançamento, a empresa informou que todos haviam estabelecido comunicação com sua rede de estações terrestres e apresentavam condições iniciais normais.
O principal deles é o Merlin.01.
Ele inaugura uma constelação projetada para mudar a maneira como a empresa procura acontecimentos na superfície. Em vez de depender apenas de alvos escolhidos previamente, Merlin pretende observar regiões muito maiores e detectar automaticamente onde ocorreram mudanças.
Cada satélite da família deverá contar com instrumentos ópticos em 10 bandas espectrais, alinhadas às utilizadas pelos satélites Sentinel, resolução próxima de um metro e uma faixa de observação com aproximadamente 170 quilômetros de largura.
Essa combinação tenta contornar um dilema clássico.
Normalmente, obter imagens de altíssima resolução significa observar áreas menores em cada passagem. Ampliar a cobertura, por outro lado, costuma exigir algum sacrifício nos detalhes.
Merlin pretende ocupar uma posição intermediária: observar grandes extensões, localizar alterações importantes e indicar onde os outros satélites devem olhar com mais atenção.
A IA poderá encontrar uma mudança e pedir que outro satélite tire uma foto melhor
Junto com Merlin.01, chegaram ao espaço dois NewSat Mark VI e um NewSat Mark V.
Os Mark VI trazem uma peça importante dessa arquitetura: links de comunicação entre satélites.
Isso permite que informações sejam transmitidas diretamente de um veículo orbital para outro, sem que cada etapa precise passar primeiro por uma estação no solo.
A ideia da Satellogic é combinar essa comunicação com processamento de inteligência artificial a bordo.
No cenário planejado pela empresa, Merlin poderia identificar uma alteração enquanto observa uma grande área e enviar instruções para um NewSat Mark VI realizar posteriormente uma observação mais detalhada.
Esses satélites podem produzir imagens com resolução de até 50 centímetros.
Na prática, Merlin funcionaria como uma espécie de sentinela: encontra algo diferente e chama outro instrumento para investigar.
A estratégia poderia reduzir o intervalo entre detectar um acontecimento e conseguir imagens suficientemente detalhadas para analisá-lo.
O NewSat Mark V lançado na mesma missão possui outro objetivo. Ele amplia as capacidades do programa Sovereign Space Systems, voltado a governos interessados em operar capacidade satelital dedicada.
Agora começa a fase de testes.
Depois do contato inicial, os quatro veículos entraram no período conhecido como LEOP, durante o qual os engenheiros verificam seus sistemas básicos. A previsão era iniciar os testes da carga útil do Merlin.01 em meados de outubro.
O objetivo final é chegar a um novo mapa da Terra todos os dias
A Satellogic espera que a constelação Merlin alcance sua capacidade operacional completa durante a segunda metade de 2027.
A ambição é construir uma camada de observação capaz de contribuir, no futuro, para um remapeamento diário do planeta com resolução da ordem de um metro.
Isso não significa simplesmente tirar uma gigantesca fotografia da Terra a cada 24 horas.
A proposta envolve combinar cobertura frequente, identificação automatizada de mudanças e observações posteriores de maior resolução, criando um sistema que decida rapidamente onde vale a pena concentrar seus instrumentos.
Para a Satellogic, porém, Merlin.01 representa o começo de algo maior.
Se a arquitetura funcionar como planejado, satélites não apenas observarão a superfície: poderão detectar mudanças, conversar entre si e reorganizar parte das observações antes mesmo que os dados retornem à Terra.
Transformar uma constelação de câmeras orbitais em um sistema capaz de acompanhar um planeta inteiro que nunca para de mudar.