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Ciência

Urina de alpinistas e combustível ajudam a derreter milhares de toneladas de gelo no Everest

Estudo estima que a atividade humana no acampamento-base pode fornecer energia suficiente para derreter cerca de 2,5 mil toneladas de gelo e neve por temporada.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O Everest recebe milhares de alpinistas, guias e trabalhadores durante a temporada de escalada. Toda essa atividade deixa uma marca que vai muito além do lixo acumulado na montanha.

Uma pesquisa internacional concluiu que o calor liberado pela queima de combustíveis no acampamento-base, combinado com a urina humana despejada sobre a geleira, pode fornecer energia suficiente para derreter aproximadamente 2,5 mil toneladas de gelo e neve por ano.

O estudo analisou o acampamento-base localizado na geleira Khumbu, no lado nepalês do Everest, e foi publicado na revista científica Regional Environmental Change.

Um pequeno vilarejo sobre uma geleira

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© AFP

Durante aproximadamente 50 dias da temporada de primavera, o acampamento-base do Everest se transforma em uma verdadeira cidade temporária.

Milhares de pessoas ocupam a região, que passa a contar com cozinhas, cafeterias, internet de alta velocidade, televisores, chuveiros de água quente e até pisos aquecidos dentro das barracas.

Manter toda essa infraestrutura funcionando exige grandes quantidades de energia.

Segundo os pesquisadores, as aproximadamente 1.600 barracas instaladas durante a temporada de 2023 consumiram 824 cilindros de gás liquefeito de petróleo, 18.935 litros de querosene e 5.130 litros de gasolina.

Esses combustíveis são utilizados principalmente para cozinhar, produzir eletricidade e aquecer os ambientes.

O problema é que boa parte da energia térmica liberada acaba chegando ao gelo localizado abaixo e ao redor do acampamento.

Energia poderia derreter cerca de 2,5 mil toneladas de gelo

Os cientistas calcularam que a atividade humana no acampamento liberou aproximadamente 849 mil megajoules de energia durante a temporada analisada.

Essa quantidade seria suficiente para derreter cerca de 2.492 toneladas de gelo e neve.

Como existem incertezas nos cálculos, os pesquisadores estimam que o valor real possa variar entre aproximadamente 1.964 e 3.020 toneladas.

Para colocar o número em perspectiva, a quantidade de água resultante seria suficiente para encher aproximadamente uma piscina olímpica, 83 caminhões-tanque ou cerca de 16.700 banheiras domésticas.

Mas os combustíveis não são a única fonte de calor produzida pelos visitantes.

A urina também contribui para o derretimento

Em grandes altitudes, alpinistas e guias precisam consumir bastante água para reduzir o risco de desidratação.

Como consequência, as milhares de pessoas presentes no acampamento produzem juntas aproximadamente 6 mil litros de urina diariamente.

Enquanto os resíduos sólidos geralmente são recolhidos e transportados para regiões mais baixas, grande parte da urina acaba sendo despejada diretamente sobre a geleira.

E ela chega ao ambiente em uma temperatura muito superior à do gelo.

Os pesquisadores estimaram que apenas a energia térmica transportada pela urina poderia contribuir para derreter aproximadamente 154 toneladas de gelo durante uma única temporada.

Isso não significa que a urina esteja literalmente abrindo enormes crateras no Everest. O cálculo representa a quantidade potencial de gelo que poderia ser derretida pela energia térmica liberada no ambiente.

Temperatura aumentou mais rapidamente no acampamento

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© https://x.com/MorningBrew

Os pesquisadores também analisaram imagens dos satélites Landsat registradas entre 1991 e 2023.

Os dados indicaram uma tendência de aquecimento particularmente intensa na região ocupada pelo acampamento-base.

Segundo o estudo, as temperaturas superficiais no local aumentaram, em média, cerca de 0,28 °C por ano no período analisado, uma taxa aproximadamente duas vezes maior do que a observada nas áreas próximas da geleira Khumbu.

Os autores não atribuem o desaparecimento das geleiras do Everest principalmente aos visitantes.

A mudança climática continua sendo o principal fator responsável pelo recuo e pela perda de massa das geleiras da região.

O estudo chama atenção, porém, para um impacto muito mais localizado: reunir milhares de pessoas, equipamentos e sistemas de aquecimento sobre uma geleira já vulnerável acrescenta uma fonte adicional de energia exatamente onde o gelo está desaparecendo.

Com o turismo de alta montanha crescendo e o Everest recebendo grandes expedições todos os anos, os pesquisadores argumentam que o modelo atual do acampamento-base pode precisar ser repensado.

A montanha já enfrenta os efeitos de um planeta mais quente. Agora, a ciência mostra que a enorme infraestrutura necessária para chegar ao seu topo também pode estar contribuindo, ainda que em escala muito menor, para transformar o próprio gelo sob os pés dos alpinistas.

 

[ Fonte: La Jornada ]

 

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