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Ushuaia virou a porta de entrada para um fenômeno que está transformando o turismo na Antártida

O continente mais remoto do planeta deixou de ser um destino para poucos aventureiros. Cruzeiros, desembarques e um crescimento acelerado começam a pressionar seus ecossistemas mais frágeis.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Veneza, Barcelona e Bali já conhecem bem as consequências do excesso de visitantes. A Antártida parecia protegida desse fenômeno por uma barreira quase perfeita: distância, frio extremo, custos elevados e uma logística complicada. Mas nem isso foi suficiente. O continente branco está recebendo um número cada vez maior de turistas, concentrados justamente em algumas de suas áreas mais sensíveis. E as projeções para a próxima década transformaram essa tendência em um alerta.

Em três décadas, o número de visitantes cresceu mais de 1.100%

No início dos anos 1990, viajar para a Antártida ainda era uma experiência extremamente incomum. Menos de 10 mil turistas chegavam ao continente durante uma temporada.

Hoje, a realidade é muito diferente.

Dados da Associação Internacional de Operadores Turísticos da Antártida (IAATO) mostram que o total de visitantes já supera 120 mil pessoas por temporada, considerando diferentes modalidades de viagem.

Na temporada 1993-1994, cerca de 8 mil passageiros desembarcaram em território antártico. Em 2013-2014, eram aproximadamente 27,7 mil. Dez anos depois, em 2023-2024, o número se aproximou de 79 mil pessoas efetivamente pisando no continente.

E existe outro grupo importante: passageiros que chegam em grandes cruzeiros, observam a Antártida a partir dos navios, mas não desembarcam.

Há uma década, eram menos de 10 mil. Atualmente, passam de 40 mil por temporada.

Grande parte dessa movimentação começa na América do Sul. Ushuaia, no extremo sul da Argentina, tornou-se a principal porta de entrada para as expedições turísticas rumo à Península Antártica.

O paradoxo é evidente.

A Antártida atrai justamente por oferecer aquilo que está desaparecendo em outros destinos: isolamento, paisagens aparentemente intocadas, enormes geleiras, colônias de pinguins e a sensação de estar em um dos últimos lugares verdadeiramente selvagens da Terra.

Quanto mais pessoas querem experimentar esse isolamento, porém, menos isolado ele se torna.

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© Sura Ark – Getty Images

O maior risco pode chegar escondido em uma bota

A pressão não está distribuída igualmente pelo continente.

A maior parte do turismo se concentra na Península Antártica e em um conjunto relativamente pequeno de locais autorizados para desembarque. Isso faz com que milhares de visitantes passem repetidamente pelas mesmas áreas durante cada temporada.

Existem regras rigorosas sobre distância da fauna, comportamento dos visitantes e quantidade de pessoas simultaneamente em determinados pontos.

Ainda assim, nem todos os impactos dependem de alguém desobedecer às normas.

Uma semente pode viajar presa a uma roupa. Micro-organismos podem acompanhar equipamentos. Embarcações e visitantes também podem transportar involuntariamente patógenos entre regiões.

Espécies invasoras de plantas já conseguiram se estabelecer em algumas ilhas antárticas e subantárticas. A chegada recente da gripe aviária a regiões próximas também mostrou como doenças podem atingir populações animais extremamente vulneráveis.

O turismo não é necessariamente responsável por todos esses processos, mas o aumento da circulação humana amplia as oportunidades de transportar organismos para ecossistemas que permaneceram isolados durante períodos enormes.

E a preocupação cresce quando se olha para o futuro.

Um estudo publicado no Journal of Sustainable Tourism calculou o que poderia acontecer caso retornasse a taxa média de crescimento observada entre 1992 e 2024, próxima de 14% ao ano.

Nesse cenário, a Antártida poderia chegar a cerca de 452 mil visitantes por temporada em 2033-2034.

Quase meio milhão de turistas mudaria a escala do problema

A projeção não é uma certeza. O crescimento futuro pode desacelerar por razões econômicas, regulatórias ou ambientais.

Mas ela mostra a velocidade que o turismo antártico já demonstrou ser capaz de alcançar.

A preocupação dos pesquisadores também não envolve apenas o número de visitantes. O risco está na combinação entre diferentes pressões.

A Antártida já enfrenta mudanças relacionadas ao aquecimento global, perda de gelo, alterações nos oceanos e transformações nos habitats. Adicionar uma presença humana crescente pode aumentar o impacto acumulativo sobre ambientes que evoluíram sob condições extraordinariamente isoladas.

Isso não significa que o continente esteja aberto a um turismo sem regras.

O Protocolo de Proteção Ambiental do Tratado da Antártida, adotado em 1991, reconhece a região como uma reserva natural, enquanto operadores e autoridades aplicam restrições a desembarques e atividades turísticas.

A questão é saber se as normas atuais serão suficientes caso o número de visitantes continue crescendo.

A Antártida parecia protegida do turismo em massa simplesmente porque chegar até ela era difícil demais.

Essa barreira está diminuindo.

O último grande território que parecia distante demais para enfrentar o excesso de visitantes já recebe mais de 100 mil turistas por temporada — e, em um cenário de retomada do crescimento histórico, esse número poderia se aproximar de meio milhão na próxima década.

O desafio agora é evitar que o desejo de conhecer um dos últimos lugares selvagens da Terra ajude justamente a transformar aquilo que torna esse lugar tão excepcional.

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