Divulgar o próprio trabalho deixou de ser uma escolha para muitos profissionais — e se tornou quase uma imposição das dinâmicas digitais. Redes sociais, antes vistas como distrações ou hobbies, viraram vitrines obrigatórias para quem quer ser visto, contratado ou lembrado. A nova lógica do mercado transformou plataformas como TikTok e Instagram em ferramentas de trabalho tão essenciais quanto um diploma ou uma carteira assinada. Entenda como e por que essa tendência chegou a todas as profissões.
Plataformização do trabalho: o que mudou

Médicos, advogados, professores e até juízes têm recorrido às redes sociais para compartilhar rotinas, oferecer dicas e se conectar com o público. De acordo com a pesquisadora Issaaf Karhawi, da USP, essa transformação está ligada ao fenômeno da plataformização do trabalho — um processo no qual plataformas digitais moldam a forma como os profissionais atuam, se comunicam e são percebidos.
Durante a pandemia, com o isolamento social e a necessidade de adaptar o trabalho ao digital, esse movimento se intensificou. Mais do que divulgar serviços, estar presente nas redes virou sinônimo de existir profissionalmente.
‘Sem internet, ninguém te vê’: a lógica da visibilidade
A advogada criminalista Aline de Oliveira Soares, de 26 anos, afirma que cerca de 90% de seus clientes chegam até ela por meio das redes sociais. Começou no Instagram ainda na faculdade, compartilhando conteúdos para colegas de curso, e ganhou alcance quando migrou para o TikTok. Hoje, com mais de 245 mil seguidores, ela combina informação jurídica com linguagem leve e até memes, o que atrai novos públicos.
Segundo ela, estar online não é uma obrigação, mas uma vantagem acessível. “Antigamente era panfleto no poste. Hoje, é um post no Instagram. A diferença de alcance é absurda”, explica.
Juiz no TikTok? Sim, e com mais de 1 milhão de seguidores
Mais uma audiência do querido juiz federal Kleiton Alves Ferreira, dando aula de simplicidade e empatia. pic.twitter.com/34jGNj46bP
— Claudio Sem Acento (@claudiopedrosa8) November 30, 2023
Mesmo quem não depende de atrair clientes está presente nas redes. É o caso do juiz federal Kleiton Alves Ferreira, que acumula mais de 1,7 milhão de seguidores no TikTok. Ele compartilha conteúdos sobre direito previdenciário, bastidores das audiências e reflexões sobre o Judiciário, com o objetivo de humanizar a figura do juiz e aproximar a Justiça da população.
Apesar da visibilidade, Kleiton diz não querer se tornar um influenciador: “Minha prioridade é ser juiz. A rede social é uma casa alugada — o dono pode pedir de volta a qualquer momento”.
O ‘chefe invisível’ chamado algoritmo
Ao entrar nas redes, o profissional passa a atuar sob as regras do algoritmo — esse sistema que decide o que será exibido e para quem. As plataformas, muitas vezes pouco transparentes, impõem códigos invisíveis que definem a forma, o tom e até o vocabulário usado pelos criadores.
O médico infectologista Ricardo Kores, por exemplo, evita termos técnicos como “pênis” ou “vagina” para não ser bloqueado. Em vez disso, usa humor e analogias criativas como “lavar o pirulito” para falar de ISTs e educação sexual — e já acumula mais de 470 mil seguidores.
Entre renda extra e sobrevivência
Para muitos profissionais, as redes não são apenas uma vitrine: são também uma fonte de renda. A professora Júlia Costa, por exemplo, passou a vender atividades pedagógicas em PDF depois de atrair seguidores interessados em suas ideias didáticas. Com isso, conseguiu reduzir sua carga horária nas escolas.
Ela toma cuidados éticos, como não expor alunos nem revelar a escola onde trabalha, e reforça que as redes se tornaram um espaço de valorização do trabalho docente — e de motivação pessoal.
Cuidados, limites e estratégias inteligentes
Segundo Luana Carvalho, diretora de comunicação da ABRH-SP, profissionais precisam ter responsabilidade ao se expor nas redes. Publicar informações confidenciais, abordar temas sensíveis ou fazer piadas mal interpretadas pode prejudicar a carreira.
Entre os cuidados recomendados estão: evitar dados internos da empresa, manter o português correto, checar informações antes de compartilhar e sempre preservar a imagem de terceiros.
Por outro lado, há conteúdos que podem — e devem — ser publicados: reflexões pessoais, dicas de carreira, relatos inspiradores e bastidores do dia a dia, sempre com propósito claro e alinhamento ético.
Conclusão: redes como extensão do trabalho, não da vida pessoal
A presença online tornou-se parte da atuação profissional. Criar um “portfólio digital” bem construído pode ser decisivo para conseguir novos clientes, ampliar a rede de contatos ou reforçar sua autoridade em determinada área.
Como resume a pesquisadora Issaaf Karhawi, vivemos na sociedade da visibilidade: quem não aparece, desaparece. Mas é possível estar nas redes com estratégia, autenticidade e equilíbrio — sem deixar que o “chefe invisível” dite tudo.
[ Fonte: G1.Globo ]