O calor costuma dominar as preocupações sobre o futuro da Amazônia. Entretanto, a floresta também enfrenta episódios em que a temperatura despenca e sua atividade muda rapidamente. São as friagens, incursões de ar frio que chegam ao território amazônico e afetam animais acostumados a condições tropicais. Estudos realizados no Peru mostram que esses eventos podem aproximar alguns insetos de seus limites fisiológicos, com consequências que ultrapassam a sobrevivência de uma espécie.
Quando o frio chega à floresta

As friagens fazem parte do clima amazônico. Massas de ar frio avançam pela América do Sul e alcançam regiões como Madre de Dios, na Amazônia peruana.
A reportagem do El País reúne observações de pesquisadores e moradores sobre mudanças na previsibilidade desses episódios. Comunidades indígenas relatam que sinais naturais usados para antecipar a chegada do frio já não oferecem a mesma segurança.
Durante esses eventos, abelhas, borboletas e outros insetos diminuem sua atividade. Isso pode interromper temporariamente tarefas importantes para o funcionamento da floresta, como a polinização e a reciclagem de matéria orgânica.
Uma queda de temperatura revelou a vulnerabilidade
Um estudo sobre os efeitos das ondas de frio na Amazônia analisou um episódio ocorrido em junho de 2023, no sudeste do Peru. A temperatura mínima registrada nas áreas de floresta de baixa altitude chegou a 10,5 °C.
Os pesquisadores compararam registros ambientais com testes de tolerância térmica e levantamentos de animais antes, durante e depois do evento. A atividade registrada caiu durante o frio, mas a maioria dos grupos estudados voltou a apresentar níveis semelhantes aos anteriores na amostragem posterior.
Isso sugere uma capacidade importante de resistência. A redução de animais nas armadilhas, portanto, não pode ser interpretada automaticamente como mortalidade.
Ainda assim, um quarto dos insetos testados tinha uma margem inferior a 1 °C entre a temperatura mínima observada e o limite em que perdia a capacidade de se locomover. Esse limite mede uma falha funcional, não necessariamente a morte do animal.
Os efeitos podem permanecer depois da friagem
Os besouros rola-bosta apresentaram um resultado diferente: sua biomassa permaneceu baixa após o episódio. Os autores consideram que isso pode indicar mortalidade de algumas espécies ou atraso no desenvolvimento.
O tempo de exposição também importa. Os testes de laboratório duraram aproximadamente uma hora, enquanto o frio na natureza pode persistir por muito mais tempo.
Assim, temperaturas que não parecem fatais em um experimento curto podem provocar danos em condições prolongadas. Essa diferença ajuda a explicar por que medir apenas a mínima registrada não basta para avaliar o impacto ecológico.
A capacidade de adaptação tem limites

Outra pesquisa publicada na Nature examinou a tolerância térmica de insetos tropicais em gradientes de altitude no Peru e no Quênia.
O trabalho encontrou diferenças entre grupos e ambientes. Nos testes de choque térmico, insetos de regiões intermediárias e elevadas demonstraram maior tolerância posterior ao frio. Nas terras baixas, porém, a exposição teve o efeito contrário: os animais submetidos ao choque toleraram menos frio que os indivíduos sem esse tratamento.
O resultado indica que uma exposição prévia não garante proteção. A resposta depende das características dos insetos e das condições às quais estão adaptados.
Por isso, os pesquisadores precisam considerar tanto o aquecimento quanto as quedas de temperatura. Os insetos tropicais enfrentam limites nas duas extremidades, e as respostas variam entre espécies.
O risco está nas funções que deixam de acontecer
Os resultados apontam uma floresta capaz de resistir a certos episódios, mas com grupos que operam perto de seus limites. Ondas mais intensas ou duradouras podem alterar esse equilíbrio.
Além dos efeitos diretos, a menor atividade dos insetos pode reduzir a disponibilidade de alimento para outros animais. Como interpretação ecológica desses resultados, mesmo uma interrupção temporária pode repercutir nas relações entre espécies.
Entender essas conexões exige acompanhar a floresta durante o frio e depois que o calor retorna. É nesse intervalo que aparecem tanto a recuperação quanto os efeitos que persistem.