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Ciência

O que realmente faz a temperatura despencar no deserto depois do pôr do Sol

Durante o dia, alguns desertos parecem verdadeiros fornos. Quando o Sol desaparece, porém, o cenário muda rapidamente. O segredo está em uma combinação pouco óbvia.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Poucos ambientes da Terra conseguem produzir uma sensação térmica tão contraditória quanto o deserto. Sob o Sol, o chão pode ficar quente a ponto de tornar impossível tocá-lo por muito tempo. Algumas horas depois, o mesmo lugar pode estar surpreendentemente frio. A diferença parece exagerada, mas não é resultado de um único fenômeno. Existe uma combinação de características atmosféricas e do próprio solo que faz esses ambientes perderem calor de maneira especialmente rápida.

O calor que parece ficar preso na superfície

Durante o dia, a radiação solar atinge diretamente o terreno. Areia, pedras e outras superfícies absorvem essa energia e aumentam rapidamente de temperatura, aquecendo também o ar que está logo acima delas.

É por isso que as temperaturas próximas ao solo podem ficar extremamente elevadas, principalmente nas horas de maior insolação.

Mas existe um detalhe importante: boa parte dessa energia permanece concentrada nas camadas mais superficiais do terreno. O calor não penetra profundamente com a mesma facilidade que poderia ocorrer em outros tipos de solo.

Enquanto o Sol continua no céu, isso pouco importa. A superfície recebe energia continuamente e consegue manter temperaturas muito altas.

A situação muda assim que a noite começa.

Sem a radiação solar chegando, o terreno passa imediatamente de receptor a emissor de energia. A superfície começa a liberar o calor acumulado na forma de radiação infravermelha.

E é nesse momento que uma das características mais importantes do deserto entra em cena.

O ar seco deixa escapar justamente o que o deserto acumulou

A atmosfera contém vapor de água, e esse vapor tem um papel importante no equilíbrio térmico da superfície terrestre. Ele absorve parte da radiação infravermelha emitida pelo solo e ajuda a manter energia próxima à superfície.

Em regiões úmidas, essa presença de vapor d’água contribui para reduzir a velocidade do resfriamento durante a noite.

No deserto, a história é diferente.

Como o ar contém pouca umidade, existe menos vapor de água disponível para absorver essa radiação. Assim, uma parcela maior da energia emitida pelo solo consegue escapar para níveis superiores da atmosfera.

O curioso é que o mesmo ar seco que favorece temperaturas muito altas durante o dia ajuda a acelerar a perda de calor depois que o Sol desaparece.

Mas ainda falta uma peça importante nessa história: o céu.

Quando o céu limpo transforma a noite em um radiador

As nuvens funcionam como uma espécie de cobertura térmica. Elas absorvem parte da radiação infravermelha emitida pela superfície e devolvem uma parcela dessa energia para baixo.

Em uma noite nublada, portanto, o resfriamento do solo tende a ser menos intenso.

Nos desertos, porém, o céu frequentemente permanece limpo. Durante o dia, isso permite que mais radiação solar alcance diretamente a superfície. À noite, o efeito se inverte: sem uma camada de nuvens para dificultar a perda de energia, o calor acumulado consegue escapar com mais facilidade.

O próprio terreno completa o processo. A areia pode atingir temperaturas muito elevadas, mas não armazena grandes quantidades de calor em profundidade. Quando a fonte de energia desaparece, a superfície esfria rapidamente.

É a combinação desses três elementos — baixa umidade, céu aberto e uma superfície que responde rapidamente ao aquecimento e ao resfriamento — que produz a enorme diferença entre o dia e a noite.

E isso explica por que a ideia de que todo deserto é simplesmente um lugar quente está incompleta.

Nem todo deserto é quente — e alguns podem congelar

A palavra “deserto” está relacionada principalmente à quantidade extremamente baixa de precipitação, e não à temperatura.

Por isso, existem desertos frios. A Antártida é o maior exemplo: apesar de estar coberta de gelo, recebe tão pouca precipitação que é classificada como um deserto.

Mesmo entre os desertos mais quentes, as condições variam bastante. Altitude, latitude, época do ano, proximidade do oceano e circulação atmosférica podem alterar significativamente as temperaturas registradas.

Em determinadas regiões, especialmente em áreas elevadas ou durante o inverno, a queda noturna pode ser suficiente para levar os termômetros abaixo de 0 °C.

Isso não significa que todos os desertos passem todas as noites do calor extremo ao congelamento. O que caracteriza muitos deles é outra coisa: a velocidade com que a temperatura pode mudar depois que a luz solar desaparece.

No fim, o contraste não é causado apenas pela areia quente. O verdadeiro segredo está na interação entre o terreno e uma atmosfera que oferece pouca resistência à perda de energia.

O deserto pode ser um forno durante o dia justamente porque, algumas horas depois, terá poucas barreiras para devolver esse calor ao espaço.

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