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Ciência

A Antártida começa a seguir o mesmo caminho da Groenlândia: cientistas detectam perda de gelo sem precedentes e alertam para impactos globais

Pesquisadores identificaram um fenômeno preocupante no continente mais gelado da Terra. A Antártida está entrando em um processo semelhante ao que transformou a Groenlândia nas últimas décadas, com derretimento acelerado e recuo de geleiras. O fenômeno pode ter efeitos diretos no nível do mar e no clima global.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, a Antártida foi vista como um gigante gelado relativamente estável no sistema climático da Terra. No entanto, novas pesquisas indicam que essa percepção pode estar mudando rapidamente. Um estudo publicado na revista Nature Geoscience mostra que o continente está perdendo plataformas de gelo em um ritmo que ultrapassa a capacidade de recuperação natural. Esse processo lembra o que aconteceu na Groenlândia desde os anos 1980 e acende um alerta sobre os impactos globais do aquecimento do planeta.

Uma perda de gelo maior do que se imaginava

Cientistas descobrem movimento inesperado sob o gelo da Groenlândia
© http://x.com/Tiredearth/

Pesquisadores liderados pela cientista Ruth Mottram, do Instituto Meteorológico Dinamarquês, analisaram a evolução das plataformas de gelo antárticas nas últimas décadas. O estudo concluiu que, entre 1997 e 2021, o continente perdeu cerca de 36.700 quilômetros quadrados de plataformas de gelo.

Essa área é comparável ao tamanho do estado de Maryland, nos Estados Unidos. Segundo os autores, a perda ultrapassa aquilo que poderia ser recuperado por meio dos ciclos naturais de crescimento e retração das geleiras.

Um dos sinais mais claros dessa mudança é o recuo acelerado da chamada “linha de aterramento” das geleiras — o ponto onde o gelo deixa de estar apoiado no continente e passa a flutuar sobre o oceano. Esse deslocamento indica que o sistema está se tornando cada vez mais vulnerável às mudanças climáticas.

O principal motor desse processo é o aumento das temperaturas do oceano e da atmosfera, que enfraquece as estruturas de gelo e favorece o desprendimento de grandes blocos, conhecidos como icebergs.

A “groenlandização” da Antártida

Os cientistas passaram a usar um termo específico para descrever essa transformação: groenlandização. O conceito descreve quando uma região coberta por gelo passa a apresentar padrões semelhantes aos observados na Groenlândia, onde o derretimento superficial se intensificou drasticamente desde os anos 1980.

Jonathan Kingslake, geocientista do Observatório Terrestre Lamont-Doherty da Universidade Columbia, explica que essa mudança significa uma transição estrutural no comportamento do gelo.

Em vez de grandes plataformas flutuantes que estabilizam o sistema glacial, o cenário passa a ser dominado por derretimento na superfície e pela fragmentação dessas estruturas.

Para comparar as duas regiões, os pesquisadores utilizaram dados do satélite GRACE (Gravity Recovery and Climate Experiment). Esse sistema mede variações no campo gravitacional da Terra, permitindo identificar mudanças na massa de gelo ao longo do tempo.

A cientista Jacqueline Austermann, também do Observatório Lamont-Doherty e da Columbia Climate School, explica o princípio do método. Quando um satélite passa por uma região com grande massa de gelo, ele sofre uma leve atração gravitacional. A variação da distância entre dois satélites revela mudanças na massa total, permitindo monitorar o derretimento ao longo dos anos.

Plataformas de gelo estão enfraquecendo

Cientistas descobrem movimento inesperado sob o gelo da Groenlândia
© https://x.com/MikeHudema

Cerca de 75% da costa da Antártida é protegida por plataformas de gelo flutuantes. Essas estruturas funcionam como uma espécie de “freio” natural, reduzindo a velocidade com que os glaciares continentais deslizam em direção ao mar.

Quando essas plataformas enfraquecem ou colapsam, o fluxo de gelo para o oceano acelera.

O derretimento ocorre por dois mecanismos principais. O primeiro acontece na base das plataformas, onde águas oceânicas mais quentes corroem o gelo por baixo. O segundo ocorre na superfície, em um processo chamado hidrofratura.

Nesse caso, lagos de água de degelo se acumulam sobre o gelo. O peso da água cria pressão e provoca rachaduras profundas que podem levar à fragmentação completa das plataformas.

Além disso, a água doce formada pelo derretimento tende a flutuar sobre a água salgada, criando correntes ascendentes que puxam mais água oceânica quente para a base das plataformas — um ciclo que acelera ainda mais o processo.

As regiões mais vulneráveis

A maior parte da perda de gelo está concentrada na Antártida Ocidental e na Península Antártica. Uma das áreas mais críticas é o mar de Amundsen, onde estão os glaciares Pine Island e Thwaites.

Desde os anos 1990, esses glaciares registraram um aumento de cerca de 50% na velocidade do fluxo de gelo em direção ao oceano.

Mesmo a Antártida Oriental, historicamente considerada mais estável, já apresenta sinais de afinamento e recuo de gelo em algumas regiões.

O impacto no nível do mar

A Antártida guardava um segredo sob o gelo: fragmento de âmbar revela como era seu antigo bosque
© Unsplash – Matt Palmer.

A principal preocupação dos cientistas é o efeito desse processo sobre o nível global do mar.

O estudo aponta que a groenlandização da Antártida pode contribuir significativamente para a elevação dos oceanos nas próximas décadas. Isso representa uma ameaça direta para cidades costeiras, ilhas e regiões baixas em todo o planeta.

À medida que o nível do mar sobe, também aumenta a frequência de inundações costeiras e o risco de tempestades mais destrutivas.

Ainda há muitas incertezas

Apesar dos avanços científicos, os pesquisadores reconhecem que ainda existem grandes lacunas na compreensão da dinâmica do gelo antártico.

Muitos processos físicos envolvidos no colapso das plataformas ainda são difíceis de representar em modelos matemáticos. Além disso, faltam dados suficientes para calibrar simulações climáticas com precisão.

Por isso, os cientistas defendem mais pesquisas e missões de monitoramento para entender melhor como o aquecimento global está alterando o comportamento do gelo no continente.

Um alerta vindo do continente mais frio do planeta

Por muito tempo, o derretimento da Antártida foi considerado um problema distante no futuro. No entanto, os dados mais recentes indicam que essas mudanças já estão em curso.

A rápida perda de gelo no Polo Sul reforça a ideia de que o sistema climático da Terra está passando por transformações mais rápidas do que se imaginava.

E, embora aconteça em um dos lugares mais remotos do planeta, o que ocorre na Antártida pode afetar diretamente o futuro de milhões de pessoas que vivem nas regiões costeiras do mundo.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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