Desde o fim dos anos 1980, eventos climáticos extremos deixaram um rastro de destruição difícil de ignorar. Inundações, tempestades e ondas de calor passaram a afetar milhões de pessoas, mas seus impactos humanos não seguiram um único caminho. Um novo estudo internacional mostra que, ao mesmo tempo em que políticas de adaptação reduziram mortes em certas regiões, outras se tornaram mais vulneráveis. O levantamento ajuda a entender como escolhas, infraestrutura e clima moldaram esse saldo desigual de vidas perdidas.
O que os dados globais revelam sobre quase quatro décadas

A pesquisa analisou eventos climáticos extremos ocorridos entre 1988 e 2024, utilizando o banco de dados internacional EM-DAT, uma das principais referências mundiais sobre desastres naturais. O recorte adotado considerou apenas episódios com 30 ou mais mortes, responsáveis por mais de 95% de todas as fatalidades registradas no período.
Ao todo, foram examinados 1.974 desastres, incluindo inundações, tempestades e eventos de temperaturas extremas. Juntos, esses episódios causaram cerca de 940 mil mortes em todo o mundo. Para facilitar a comparação, os dados foram agrupados em cinco grandes regiões: África, Ásia, Europa, América do Norte e América Latina e Caribe. A maior concentração de eventos ocorreu na Ásia, seguida pela África, Europa, América Latina e América do Norte.
Alguns tipos de desastres, como incêndios florestais, secas e rompimentos de lagos glaciais, ficaram fora da análise por representarem uma parcela muito pequena do total de mortes. Ainda assim, o conjunto de dados oferece uma visão abrangente sobre como o risco climático evoluiu ao longo do tempo — e como ele afeta regiões de forma desigual.
Quando adaptação salva vidas: o caso da Ásia
Um dos resultados mais marcantes do estudo aparece na Ásia. Apesar de inundações e tempestades não terem se tornado menos frequentes, elas passaram a causar menos mortes ao longo das décadas. A análise sugere que investimentos em adaptação foram decisivos para essa mudança.
Melhorias em infraestrutura, sistemas de alerta precoce, planejamento urbano e respostas rápidas a emergências podem ter evitado cerca de 350 mil mortes entre 1988 e 2024. Isso representa uma redução estimada de 40% na mortalidade associada a esses eventos, mesmo sem descontar o efeito do agravamento climático provocado pelo aquecimento global.
O próprio autor do estudo, BB Cael, da Universidade de Chicago, afirmou ter se surpreendido com a magnitude dessa estimativa. Ele ressalta, no entanto, que os resultados são de escala continental e não significam que a região esteja livre de riscos. As mudanças climáticas continuam a representar uma ameaça significativa, mas a experiência asiática mostra que políticas consistentes de adaptação podem fazer diferença concreta.
África e Europa: riscos crescentes e novas ameaças
O cenário é bem diferente em outras partes do mundo. Na África, o estudo identificou um aumento na frequência de inundações fatais. Esse crescimento está ligado, em grande parte, ao aumento populacional e à maior exposição de comunidades vulneráveis a áreas de risco, muitas vezes sem infraestrutura adequada ou sistemas eficazes de alerta.
Na Europa, o destaque negativo ficou por conta das ondas de calor. Ao longo do período analisado, esses eventos se tornaram mais frequentes do que as ondas de frio e passaram a ser progressivamente mais letais. Um dado simbólico dessa mudança é a alteração sazonal das mortes: antes concentradas no inverno, elas passaram a ocorrer majoritariamente entre a primavera e o verão.
Esse deslocamento reflete como o aquecimento global não apenas intensifica eventos extremos, mas também redefine quais riscos são mais relevantes em cada região. O calor excessivo, muitas vezes subestimado, emerge como um dos maiores desafios para a saúde pública europeia.
Tragédias fora da curva e eventos raros de alto impacto
O estudo também chama atenção para episódios estatisticamente raros, mas devastadores. Um exemplo é a tempestade Daniel, que atingiu o Mediterrâneo em setembro de 2023. Considerado o ciclone mais mortal já registrado na região, o evento causou cerca de 13,2 mil mortes, principalmente na Líbia.
A tragédia foi agravada pelo rompimento de duas barragens, que liberaram milhões de metros cúbicos de água sobre a cidade de Derna. Além das perdas humanas, os prejuízos materiais ultrapassaram 20 bilhões de euros. Ao analisar os dados africanos sem esse episódio específico, os pesquisadores não identificaram uma tendência clara de aumento nas mortes por tempestades, o que indica o caráter excepcional do evento — estimado como algo que ocorre apenas uma vez a cada dois séculos.
Um alerta que vai além das estatísticas de mortes
Nas Américas, o levantamento não encontrou tendências estatisticamente significativas no número de mortes causadas por eventos climáticos extremos. Ainda assim, os pesquisadores reforçam que o impacto humano das mudanças climáticas não pode ser medido apenas pelo número de fatalidades.
Desastres também provocam perdas econômicas, redução de produtividade, deslocamentos forçados e danos profundos aos ecossistemas. Esses custos, muitas vezes invisíveis nas estatísticas, afetam o desenvolvimento de países e a qualidade de vida de milhões de pessoas.
O estudo deixa uma mensagem clara: políticas de adaptação salvam vidas, mas não substituem a necessidade de enfrentar as causas do aquecimento global. Sem esforços coordenados para reduzir emissões e limitar o aumento da temperatura do planeta, os riscos continuarão crescendo — e de forma cada vez mais desigual entre regiões.
[Fonte: Revista Galileu]