A clássica “barriga de chope”, muitas vezes encarada como um incômodo estético ou sinal de sedentarismo, pode esconder um risco mais profundo. Um estudo divulgado no fim de 2025 durante o congresso da Sociedade Radiológica da América do Norte (RSNA), nos Estados Unidos, aponta que o excesso de gordura abdominal pode alterar a estrutura do coração mesmo antes do surgimento de sintomas ou diagnósticos formais de doença cardiovascular.
Gordura abdominal pesa mais do que o número na balança

O trabalho avaliou mais de 2.200 homens e mulheres entre 46 e 78 anos, todos sem histórico prévio de doença cardíaca. Os participantes passaram por exames detalhados de ressonância magnética do coração, o que permitiu observar mudanças sutis na anatomia cardíaca.
Os pesquisadores compararam duas medidas amplamente usadas na prática clínica: o IMC (índice de massa corporal), que considera peso e altura, e a relação cintura-quadril, que indica a concentração de gordura na região abdominal.
O resultado foi claro: quanto maior a relação cintura-quadril, maiores eram as alterações estruturais consideradas preocupantes no coração. Essas mudanças foram mais significativas do que aquelas associadas apenas ao excesso de peso total medido pelo IMC.
Isso ajuda a explicar por que duas pessoas com o mesmo peso — ou até com IMC semelhante — podem ter riscos cardiovasculares bastante diferentes.
O que acontece dentro do coração
As imagens mostraram um processo chamado remodelamento cardíaco. À medida que a gordura abdominal aumentava, observava-se espessamento do músculo do ventrículo esquerdo, a principal câmara de bombeamento do coração, acompanhado por redução do espaço interno das cavidades.
O coração funciona como uma bomba elástica: precisa se encher adequadamente de sangue e depois se contrair com eficiência. Quando suas paredes ficam mais espessas e rígidas, o espaço interno diminui. O órgão passa a acomodar menos sangue a cada batida.
No início, o corpo tenta compensar fazendo o coração bater mais rápido. Com o tempo, porém, essa sobrecarga compromete a capacidade de relaxamento do músculo cardíaco. Pode surgir um tipo de insuficiência cardíaca em que o coração ainda consegue se contrair, mas não se enche corretamente — prejudicando a circulação de oxigênio e nutrientes pelo organismo.
O ponto mais preocupante: essas alterações foram identificadas em pessoas aparentemente saudáveis.
Por que a gordura visceral é mais perigosa

A obesidade abdominal está fortemente ligada ao acúmulo de gordura visceral — aquela que se deposita profundamente no abdômen, ao redor de órgãos como fígado e intestino.
Diferentemente da gordura subcutânea, que fica logo abaixo da pele, a gordura visceral é metabolicamente ativa. Ela libera substâncias inflamatórias na corrente sanguínea, como citocinas e adipocinas, que favorecem resistência à insulina, alterações no colesterol e aumento da pressão arterial.
Esse estado de inflamação crônica de baixo grau cria um ambiente que sobrecarrega o sistema cardiovascular ao longo dos anos.
Quando o IMC foi analisado isoladamente, o padrão foi diferente: pessoas com IMC elevado, mas sem grande concentração de gordura abdominal, apresentaram aumento do tamanho das câmaras cardíacas, mas não o mesmo grau de espessamento muscular observado na obesidade central.
Isso reforça uma crítica já conhecida: o IMC não diferencia massa muscular de gordura nem indica onde essa gordura está localizada.
Homens parecem mais vulneráveis
O estudo também identificou diferenças importantes entre homens e mulheres. Embora ambos apresentem alterações associadas à obesidade abdominal, os efeitos estruturais foram mais intensos nos homens.
Uma das explicações está no padrão de distribuição de gordura. Homens tendem a acumular gordura no padrão androide — concentrada no abdômen — o que favorece maior proporção de gordura visceral. Já mulheres, especialmente antes da menopausa, costumam ter padrão ginoide, com maior acúmulo em quadris e coxas, predominantemente subcutâneo.
Fatores hormonais também influenciam. O estrogênio exerce efeito cardioprotetor e ajuda a direcionar o armazenamento de gordura para regiões menos associadas a risco cardiovascular. Após a menopausa, essa proteção diminui e o risco feminino se aproxima do masculino.
Medidas simples podem ajudar na prevenção
Os resultados reforçam a importância de ampliar a forma como o risco cardiovascular é avaliado. Além da balança, medidas simples como circunferência da cintura e relação cintura-quadril podem oferecer informações valiosas.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), circunferência da cintura acima de 90 cm para homens e 85 cm para mulheres já indica maior risco cardiovascular.
A boa notícia é que a gordura visceral responde bem a mudanças de estilo de vida. Exercício físico regular e alimentação equilibrada são estratégias eficazes — muitas vezes capazes de reduzir gordura abdominal mesmo sem grande perda de peso total.
Em outras palavras: mais do que emagrecer na balança, o foco deve estar em reduzir a gordura onde ela realmente importa. O coração agradece — mesmo antes de qualquer sintoma aparecer.
[ Fonte: CNN Brasil ]