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Ciência

A ciência investigou quais técnicas de estudo realmente funcionam — e descobriu que as mais eficazes são justamente as menos usadas pelos estudantes

Substituir maratonas de estudo e releituras por métodos baseados em memória ativa pode transformar a forma como aprendemos. Uma revisão científica de universidades americanas identificou quais estratégias realmente fortalecem a retenção de conhecimento — e os resultados contrariam muitos hábitos comuns entre estudantes.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Estudar melhor não depende apenas de dedicação ou tempo investido. A ciência da aprendizagem mostra que a forma como organizamos o estudo pode ser tão importante quanto o esforço em si.

Em 2013, um grupo de psicólogos liderado por John Dunlosky, envolvendo pesquisadores de universidades como Kent State University, Duke University, University of Wisconsin–Madison e University of Virginia, decidiu investigar exatamente isso.

O estudo, publicado na revista científica Psychological Science in the Public Interest, analisou diversas técnicas de estudo amplamente utilizadas e classificou sua eficácia com base em evidências experimentais.

A conclusão foi surpreendente: muitas das estratégias mais populares entre estudantes não são as que produzem melhores resultados de aprendizagem.

As duas técnicas mais eficazes segundo a ciência

Alerta Cognitivo
© Shutterstock – PeopleImages

Entre todas as estratégias analisadas, duas se destacaram como as mais eficazes para melhorar a retenção de conhecimento no longo prazo: prática de recuperação e prática distribuída.

A prática de recuperação consiste em tentar lembrar o conteúdo sem olhar o material de estudo. Em vez de reler um texto ou revisar passivamente anotações, o estudante tenta reconstruir a informação de memória.

Isso pode incluir responder perguntas, escrever o que lembra sobre um tema ou fazer autoavaliações.

Esse método ativa o chamado “efeito de teste”, um fenômeno bem documentado na psicologia cognitiva. Quando o cérebro tenta recuperar informações da memória, ele fortalece as conexões neurais associadas ao conteúdo aprendido.

Pesquisas mostram que essa técnica melhora significativamente a retenção em diferentes idades e áreas de conhecimento.

A segunda estratégia é a prática distribuída, que consiste em espaçar as sessões de estudo ao longo do tempo.

Em vez de estudar intensamente na véspera de uma prova — o famoso “estudo de última hora” — o conteúdo é revisado em intervalos planejados.

Esse espaçamento ajuda a combater a chamada curva do esquecimento, um conceito clássico da psicologia da memória que descreve como esquecemos rapidamente informações recém-aprendidas quando não as revisamos.

Por exemplo, revisar um conteúdo dois dias após aprendê-lo e retomá-lo novamente uma semana depois ajuda a consolidar a memória de forma muito mais duradoura.

O poder de fazer perguntas e explicar o conteúdo

Outra estratégia considerada de eficácia moderada envolve fazer perguntas sobre o conteúdo estudado.

Questionar “por que” um conceito funciona ou como ele se relaciona com conhecimentos anteriores estimula o cérebro a estabelecer conexões entre ideias.

Esse processo ativa o pensamento analítico e evita o aprendizado superficial.

Dentro dessa mesma categoria aparece uma técnica bastante conhecida: o método de Richard Feynman.

Inspirada no físico teórico famoso por sua habilidade didática, a técnica consiste em explicar um conceito como se estivesse ensinando alguém que nunca ouviu falar sobre o assunto.

Ao simplificar e reorganizar a informação, o estudante percebe lacunas no próprio entendimento e reforça o aprendizado.

Nas áreas de matemática e ciências exatas, outra abordagem útil é o estudo intercalado. Esse método envolve misturar diferentes tipos de problemas ou tópicos em vez de praticar apenas um tipo de exercício por vez.

Essa alternância ajuda o cérebro a desenvolver estratégias de raciocínio mais flexíveis.

Por que sublinhar e reler nem sempre funciona

Escrever à Mão
© FreePik

Muitas técnicas populares de estudo tiveram desempenho muito mais modesto nas análises científicas.

Sublinhar trechos de textos ou reler repetidamente o material, por exemplo, podem gerar uma sensação enganosa de aprendizado.

Esse fenômeno é conhecido como “ilusão de competência”. O estudante sente que domina o conteúdo porque ele parece familiar durante a leitura, mas isso não significa que conseguirá lembrá-lo posteriormente.

Pesquisas publicadas na revista Memory, conduzidas por cientistas como Jeffrey Karpicke, mostram que muitos estudantes priorizam a releitura em vez de estratégias mais eficazes.

Em um dos estudos, apenas uma pequena parcela de universitários afirmou utilizar autoavaliações como método principal de estudo.

Isso sugere que as técnicas mais eficazes ainda são pouco conhecidas ou pouco ensinadas.

O papel do sono e da atividade física na aprendizagem

Além das estratégias cognitivas, fatores biológicos também influenciam diretamente a memória.

Dormir bem é fundamental para consolidar informações aprendidas ao longo do dia. Durante o sono, o cérebro reorganiza memórias recentes e fortalece circuitos neurais associados ao aprendizado.

A prática regular de exercícios aeróbicos também pode contribuir para a memória, pois melhora a circulação sanguínea e a oxigenação cerebral.

Esses fatores ajudam a criar condições fisiológicas ideais para o funcionamento do cérebro.

Aprender melhor é uma estratégia de longo prazo

A principal conclusão da pesquisa é simples, mas poderosa: aprender de forma eficaz exige planejamento e métodos ativos.

Estratégias que parecem mais difíceis no início — como testar a própria memória ou distribuir o estudo ao longo do tempo — acabam produzindo resultados muito mais duradouros.

Em outras palavras, o esforço cognitivo que sentimos durante o estudo muitas vezes é justamente o sinal de que o aprendizado está acontecendo.

E isso transforma o estudo em algo muito mais próximo de um investimento: o que parece difícil hoje pode se tornar conhecimento sólido amanhã.

 

[Fonte: Infobae ]

 

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