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Ciência

A ciência revela um novo olhar sobre o autismo — e pode mudar tudo o que sabíamos até agora

Um estudo internacional com mais de 45 mil pessoas acaba de transformar a forma como entendemos o autismo. Os pesquisadores descobriram que não existe apenas um tipo de autismo, mas pelo menos dois perfis genéticos distintos, o que pode revolucionar o diagnóstico, os tratamentos e o apoio às pessoas autistas.
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Tempo de leitura: 2 minutos

Durante décadas, o autismo foi visto como uma condição única, com um espectro amplo, mas uniforme. Agora, a ciência está abrindo uma nova perspectiva. Uma pesquisa histórica publicada na revista Nature identificou diferenças genéticas claras entre pessoas diagnosticadas na infância e aquelas que só recebem o diagnóstico na adolescência ou vida adulta. Essa descoberta reforça a ideia de que existem “os autismos” — e não apenas um.

Dois perfis genéticos, duas trajetórias diferentes

O estudo analisou o DNA de mais de 45 mil pessoas em diferentes países e encontrou dois perfis genéticos bem distintos, determinados pela idade do diagnóstico.

O autismo de diagnóstico precoce, geralmente identificado nos primeiros anos de vida, está ligado a dificuldades mais evidentes na comunicação e na interação social. Esse grupo também mostrou correlação genética moderada com o TDAH e tende a apresentar sintomas mais estáveis ao longo do desenvolvimento.

Já o autismo de diagnóstico tardio, identificado na adolescência ou vida adulta, mostra um padrão diferente. Ele costuma aparecer em pessoas com maiores desafios emocionais e sociais à medida que crescem e está geneticamente mais associado a condições como ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático.

O que isso muda na compreensão do autismo

Segundo a neurocientista Uta Frith, da University College London, o resultado é um divisor de águas: “O autismo não é uma condição única, mas um conjunto de trajetórias distintas.”
Essa constatação explica por que tantos estudos anteriores apresentavam resultados contraditórios — especialmente nas pesquisas que comparavam o autismo com o TDAH. A idade média dos participantes influenciava fortemente as conclusões, o que agora começa a fazer sentido.

Além disso, o estudo convida a repensar debates ainda comuns, como a ideia de uma “epidemia do autismo” ou a busca por “tratamentos universais”. A nova evidência mostra que o autismo é tão diverso quanto as pessoas que o vivem.

Genética, ambiente e desigualdades no diagnóstico

Os cientistas estimam que as variações genéticas explicam cerca de 11% da diferença na idade do diagnóstico, um impacto comparável — e até superior — a fatores como sexo, atraso de linguagem ou condições socioeconômicas.

Mas os genes não contam toda a história. Questões como acesso à saúde, estigma social e diferenças de gênero ainda determinam quem é diagnosticado e quando. No Brasil, por exemplo, muitas famílias enfrentam uma longa espera até obter um diagnóstico confiável, o que reforça a importância de ampliar o acesso a avaliações especializadas e apoio público.

Um novo caminho: apoio mais personalizado

A principal mensagem desse estudo é clara: talvez devêssemos parar de falar “o autismo” e começar a falar “os autismos”.
Reconhecer que existem trajetórias genéticas e comportamentais distintas pode levar a intervenções mais precisas e humanizadas, ajustadas às necessidades reais de cada pessoa.

Em vez de procurar uma cura ou uma causa única, o foco deve estar em entender, respeitar e apoiar a diversidade.
Afinal, compreender melhor as diferenças não divide — une.

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