Durante décadas, o autismo foi visto como uma condição única, com um espectro amplo, mas uniforme. Agora, a ciência está abrindo uma nova perspectiva. Uma pesquisa histórica publicada na revista Nature identificou diferenças genéticas claras entre pessoas diagnosticadas na infância e aquelas que só recebem o diagnóstico na adolescência ou vida adulta. Essa descoberta reforça a ideia de que existem “os autismos” — e não apenas um.
Dois perfis genéticos, duas trajetórias diferentes
O estudo analisou o DNA de mais de 45 mil pessoas em diferentes países e encontrou dois perfis genéticos bem distintos, determinados pela idade do diagnóstico.
O autismo de diagnóstico precoce, geralmente identificado nos primeiros anos de vida, está ligado a dificuldades mais evidentes na comunicação e na interação social. Esse grupo também mostrou correlação genética moderada com o TDAH e tende a apresentar sintomas mais estáveis ao longo do desenvolvimento.
Já o autismo de diagnóstico tardio, identificado na adolescência ou vida adulta, mostra um padrão diferente. Ele costuma aparecer em pessoas com maiores desafios emocionais e sociais à medida que crescem e está geneticamente mais associado a condições como ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático.
O que isso muda na compreensão do autismo
Segundo a neurocientista Uta Frith, da University College London, o resultado é um divisor de águas: “O autismo não é uma condição única, mas um conjunto de trajetórias distintas.”
Essa constatação explica por que tantos estudos anteriores apresentavam resultados contraditórios — especialmente nas pesquisas que comparavam o autismo com o TDAH. A idade média dos participantes influenciava fortemente as conclusões, o que agora começa a fazer sentido.
Além disso, o estudo convida a repensar debates ainda comuns, como a ideia de uma “epidemia do autismo” ou a busca por “tratamentos universais”. A nova evidência mostra que o autismo é tão diverso quanto as pessoas que o vivem.
Genética, ambiente e desigualdades no diagnóstico
Os cientistas estimam que as variações genéticas explicam cerca de 11% da diferença na idade do diagnóstico, um impacto comparável — e até superior — a fatores como sexo, atraso de linguagem ou condições socioeconômicas.
Mas os genes não contam toda a história. Questões como acesso à saúde, estigma social e diferenças de gênero ainda determinam quem é diagnosticado e quando. No Brasil, por exemplo, muitas famílias enfrentam uma longa espera até obter um diagnóstico confiável, o que reforça a importância de ampliar o acesso a avaliações especializadas e apoio público.
Um novo caminho: apoio mais personalizado
A principal mensagem desse estudo é clara: talvez devêssemos parar de falar “o autismo” e começar a falar “os autismos”.
Reconhecer que existem trajetórias genéticas e comportamentais distintas pode levar a intervenções mais precisas e humanizadas, ajustadas às necessidades reais de cada pessoa.
Em vez de procurar uma cura ou uma causa única, o foco deve estar em entender, respeitar e apoiar a diversidade.
Afinal, compreender melhor as diferenças não divide — une.