A Copa do Mundo de 2026 ainda nem começou, mas já enfrenta uma discussão que vai muito além do futebol. O valor das entradas para os jogos nos Estados Unidos disparou a níveis sem precedentes, gerando críticas de torcedores, entidades de defesa do consumidor e agora também do próprio presidente americano, Donald Trump.
Durante uma conversa telefônica com o jornal The Washington Post, Trump demonstrou surpresa ao descobrir que os ingressos mais baratos para a estreia da seleção dos Estados Unidos contra o Paraguai custam cerca de US$ 1.000. A partida acontecerá em Los Angeles, no dia 12 de junho de 2026, marcando o início da campanha americana no maior Mundial já realizado pela FIFA.
“Eu certamente gostaria de estar lá, mas, para ser honesto, também não pagaria isso”, afirmou o presidente.
A fala ganhou repercussão imediata porque Trump foi uma das figuras políticas envolvidas na escolha dos Estados Unidos como uma das sedes da Copa durante seu primeiro mandato. Agora, porém, ele se soma às críticas sobre o impacto dos preços elevados para os torcedores tradicionais.
A Copa mais cara da história

A edição de 2026 será histórica por vários motivos. Pela primeira vez, o torneio contará com 48 seleções e 104 partidas espalhadas por 16 cidades em Estados Unidos, Canadá e México.
Mas o crescimento do evento veio acompanhado de uma escalada impressionante nos preços. Segundo dados da FIFA e de plataformas autorizadas como Ticketmaster e StubHub, o valor médio de uma entrada para a final ultrapassa US$ 13 mil.
Para efeito de comparação, a média dos ingressos da final da Copa do Catar, em 2022, girava em torno de US$ 1.600, de acordo com a empresa de estatísticas Statista.
Em alguns casos, os bilhetes revendidos para a decisão no MetLife Stadium, em Nova Jersey, já ultrapassaram a marca de US$ 2 milhões no mercado secundário.
FIFA defende preços e aposta na demanda global
O presidente da FIFA, Gianni Infantino, vem defendendo publicamente a política de preços adotada para o torneio.
Durante a Conferência Global do Instituto Milken, em Beverly Hills, Infantino argumentou que os valores refletem a realidade do mercado americano de entretenimento.
Segundo ele, os Estados Unidos possuem uma cultura esportiva em que eventos universitários e jogos profissionais frequentemente ultrapassam centenas de dólares por ingresso.
“Recebemos cerca de 500 milhões de solicitações de entradas”, afirmou o dirigente, justificando o uso de preços dinâmicos e da valorização baseada na demanda.
A FIFA também informou já ter vendido mais de 5 milhões de ingressos para o torneio.
Trump mira o eleitorado popular

Ao comentar os preços, Trump adotou um discurso voltado à sua base eleitoral. O presidente afirmou que ficaria decepcionado caso moradores de bairros populares como Queens e Brooklyn não consigam frequentar os jogos da seleção americana.
“Gostaria que as pessoas que votaram em mim pudessem assistir”, declarou.
A fala toca em um ponto sensível: a transformação gradual de grandes eventos esportivos em experiências cada vez mais elitizadas, especialmente nos Estados Unidos.
Nos últimos anos, finais da NFL, NBA e até jogos universitários passaram a registrar preços considerados inacessíveis para grande parte do público tradicional.
Hotéis vazios e turismo abaixo do esperado
Enquanto os ingressos explodem de preço, outro problema começa a preocupar organizadores e setores ligados ao turismo: a baixa ocupação hoteleira.
Segundo a Associação Americana de Hotéis e Hospedagem (AHLA), quase 80% dos hotéis nas cidades-sede operam abaixo das reservas projetadas para o período da Copa.
Em locais como Kansas City e Houston, operadores relatam movimento inferior ao registrado em meses comuns de junho e julho.
Especialistas apontam diversos fatores para essa desaceleração:
- demora na emissão de vistos;
- altos preços de passagens;
- tensões geopolíticas;
- custos gerais da viagem;
- dificuldade para atrair turistas estrangeiros.
A própria Organização Mundial do Turismo alertou que os benefícios econômicos da Copa podem demorar a aparecer caso persistam gargalos em infraestrutura, imigração e conectividade aérea.
Pressão internacional e denúncias na Europa
O aumento dos preços também provocou reações fora dos Estados Unidos. Associações de consumidores europeias apresentaram denúncias formais à Comissão Europeia e às autoridades de concorrência da Suíça.
Os grupos acusam a FIFA de explorar sua posição dominante para impor valores considerados abusivos e inacessíveis ao público geral.
Em resposta, a entidade máxima do futebol publicou um comunicado afirmando que os preços refletem “a enorme demanda global” pelo torneio e destacou que parte das entradas será destinada a programas sociais e projetos comunitários — embora sem detalhar quantidades ou critérios de distribuição.
A discussão revela um cenário cada vez mais claro: a Copa de 2026 promete bater recordes de faturamento, audiência e dimensão global. Mas, ao mesmo tempo, cresce o receio de que o maior espetáculo do futebol esteja se tornando distante justamente das pessoas que historicamente fizeram dele um fenômeno popular.
[ Fonte: Infobae ]