Pular para o conteúdo
Ciência

A covid deixou de ser um vírus do inverno? Um mapa de 18 vírus respiratórios encontrou um padrão inesperado

Pesquisadores analisaram quase 33 mil amostras coletadas durante três anos e descobriram que o SARS-CoV-2 apresentou seus principais picos na primavera e no verão. O comportamento é diferente do observado para gripe e VSR — e pode obrigar autoridades a repensar quando vacinar contra a covid.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Gripe no inverno, resfriados nas mudanças de estação e covid quando o frio chega. Essa última parte da equação talvez precise ser revista.

Um dos mapas mais completos já realizados sobre a circulação simultânea de vírus respiratórios mostrou que o SARS-CoV-2 não está seguindo o comportamento sazonal esperado. Pelo menos na Catalunha, seus principais picos dos últimos anos ocorreram entre a primavera e o final do verão.

O resultado contrasta com vírus como influenza e vírus sincicial respiratório (VSR), que continuam apresentando uma temporada bastante previsível.

A descoberta levanta uma questão prática: se as ondas de covid estão acontecendo antes, ainda faz sentido concentrar a vacinação no outono junto com a campanha contra a gripe?

Quase 33 mil amostras revelaram o calendário dos vírus

Calendar
© Freepik

O estudo foi publicado na revista científica Eurosurveillance e utilizou dados do sistema de vigilância epidemiológica da Catalunha entre outubro de 2022 e setembro de 2025.

Foram analisadas 32.782 amostras coletadas de pacientes com sintomas de infecção respiratória aguda. Desse total, 21.278 — aproximadamente 65% — apresentaram resultado positivo para pelo menos um vírus.

A rede utilizada pelos pesquisadores cobre aproximadamente 9% da população catalã e é considerada representativa em fatores como idade, sexo, região e nível socioeconômico.

Cada amostra podia ser analisada em busca de até 18 vírus e subtipos diferentes.

O resultado é praticamente um calendário daquilo que circula pelo sistema respiratório humano durante o ano.

A gripe continua gostando do inverno

Alguns vírus se comportaram exatamente como os pesquisadores esperavam.

A influenza A apresentou o padrão sazonal mais definido, com seu pico normalmente entre o final de dezembro e o início de fevereiro no Hemisfério Norte. O VSR também mostrou uma clara preferência pelo período frio, mas costuma chegar algumas semanas antes da gripe.

Rinovírus e enterovírus apresentaram outro comportamento: duas ondas ao longo do ano, geralmente no outono e na primavera.

Adenovírus e alguns coronavírus sazonais, por outro lado, circularam praticamente durante todo o ano, sem produzir um pico epidêmico tão definido.

O conjunto revela algo curioso: os vírus respiratórios não aparecem aleatoriamente.

Muitos deles surgem em uma sequência relativamente consistente, como se diferentes patógenos ocupassem determinados espaços no calendário.

A covid foi a grande exceção

Cientistas achavam que a covid longa causava inflamação no cérebro, mas os exames revelaram algo inesperado
© Unsplash

O SARS-CoV-2 não se encaixou no padrão clássico do inverno.

Durante os três anos analisados, o coronavírus apresentou um comportamento epidêmico predominantemente no verão, com ondas começando entre a primavera e o final da estação quente. A Agência de Saúde Pública da Catalunha afirma que o resultado coloca em dúvida a suposição de que a covid acabaria adquirindo uma sazonalidade semelhante à da gripe.

E a Catalunha não é o único lugar onde o padrão está sendo observado.

Uma análise publicada em 2026 com dados dos Estados Unidos, Inglaterra e Europa encontrou uma influenza previsivelmente concentrada entre o final do outono e o inverno, enquanto os picos de SARS-CoV-2 foram muito mais dispersos e chegaram a se tornar predominantemente estivais em determinados períodos.

Isso ainda não permite declarar que a covid se transformou definitivamente em uma doença do verão.

Três temporadas são pouco tempo para estabelecer um padrão permanente, e variantes, imunidade populacional, comportamento humano e clima podem alterar essa dinâmica.

O calendário das vacinas pode precisar mudar

É aqui que a descoberta ganha uma consequência prática.

Em muitos lugares, a vacinação contra covid é organizada junto com a campanha contra a gripe, antes da temporada fria.

Mas, se as principais ondas do SARS-CoV-2 estiverem ocorrendo meses antes, parte da população vulnerável pode estar recebendo sua dose depois do período de maior circulação.

A própria Organização Mundial da Saúde reconhece que ainda não existe um padrão sazonal global consistente para a covid. Em suas recomendações atualizadas de vacinação, a OMS orienta os países a definir o momento mais adequado considerando a epidemiologia local e a viabilidade das campanhas.

Isso não significa que as campanhas atuais devam simplesmente ser antecipadas.

Aplicar covid e gripe na mesma época facilita a logística e pode aumentar a adesão. Separar as duas campanhas poderia produzir justamente o efeito contrário: menos pessoas retornando para receber outra vacina.

Os vírus parecem disputar espaço entre si

Covid1
© Thanapipat-kulmuangdoan

O atlas também revelou pistas de uma espécie de ecologia dos vírus respiratórios.

Quando o SARS-CoV-2 circulava intensamente, por exemplo, a presença de rinovírus diminuía. Durante os primeiros momentos da pandemia, um fenômeno ainda mais evidente ocorreu com a gripe, cuja circulação praticamente desapareceu em diversos lugares.

Os mecanismos por trás dessas interações ainda não são totalmente compreendidos.

Imunidade temporária após uma infecção, mudanças no comportamento humano e interferências biológicas entre diferentes vírus podem participar do fenômeno.

Por isso, o maior resultado do novo atlas talvez não seja simplesmente descobrir quando cada vírus aparece.

É perceber que o calendário das doenças respiratórias não é fixo. Depois da pandemia, ele continua se reorganizando — e o SARS-CoV-2 parece ser a peça mais imprevisível desse quebra-cabeça.

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados