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Ciência

O relógio biológico pode esconder uma peça importante do quebra-cabeça do COVID persistente

Uma pesquisa com milhares de adultos encontrou uma associação inesperada entre rotina noturna, sono e a possibilidade de continuar enfrentando sintomas muito depois da infecção.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Enquanto algumas pessoas se recuperam do COVID-19 em poucos dias, outras continuam convivendo com sintomas durante meses. As razões para essa diferença ainda não são totalmente compreendidas. Agora, uma pesquisa acompanhou milhares de adultos durante dois anos e encontrou uma possível pista em um aspecto bastante cotidiano da vida moderna: o horário em que trabalhamos e dormimos. O resultado chama atenção para o papel que nosso relógio biológico pode desempenhar na recuperação.

Quando o corpo é obrigado a funcionar no horário errado

Trabalhar durante a noite significa inverter uma rotina que o organismo passou milhões de anos aperfeiçoando. Enquanto o ambiente fica escuro e o cérebro recebe sinais para descansar, profissionais de diversos setores precisam permanecer alertas, trabalhar e tomar decisões.

Essa alteração não afeta apenas o sono. O chamado ritmo circadiano coordena uma série de processos do organismo, incluindo metabolismo, produção hormonal e funcionamento do sistema imunológico.

Pesquisadores do ISGlobal decidiram investigar se essa alteração poderia ter alguma relação com a recuperação após uma infecção pelo SARS-CoV-2.

Para isso, utilizaram informações de 2.941 adultos acompanhados pela coorte COVICAT, na Catalunha, entre 2021 e 2023. Durante o período analisado, 1.899 participantes contraíram COVID-19.

Entre eles, 284 desenvolveram sintomas que permaneceram por mais de três meses, seguindo o critério utilizado pela pesquisa para identificar COVID persistente.

Os pesquisadores então compararam participantes que trabalhavam durante o dia com pessoas que trabalhavam ou já haviam trabalhado em turnos noturnos.

Foi nesse ponto que surgiu uma diferença que chamou a atenção da equipe.

A diferença apareceu depois da infecção

Os trabalhadores noturnos apresentaram uma associação com um risco 88% maior de desenvolver COVID persistente em comparação com aqueles que trabalhavam durante o dia.

O resultado permaneceu mesmo depois que os pesquisadores levaram em consideração fatores como vacinação e doenças crônicas.

Há, porém, uma informação importante: o trabalho noturno não apareceu associado a uma maior probabilidade de contrair o vírus inicialmente.

Isso muda a interpretação do resultado.

Em vez de indicar que trabalhar à noite necessariamente aumenta a chance de pegar COVID-19, os dados levantam outra possibilidade: a alteração do relógio biológico pode estar relacionada ao que acontece depois que a infecção já ocorreu.

Em outras palavras, o horário de trabalho poderia ter alguma influência sobre a maneira como o organismo lida com a recuperação.

A associação também foi particularmente forte entre participantes com obesidade, acrescentando outra variável à relação observada.

Mas os pesquisadores encontraram uma segunda peça nesse quebra-cabeça. E ela está diretamente relacionada a algo que acompanha muitos trabalhadores noturnos: dificuldades persistentes para dormir.

Covid
© Magnific

O sono parece acrescentar outra camada ao problema

O estudo também analisou o impacto do insônia crônica e encontrou uma associação independente.

Participantes que sofriam de insônia apresentaram um risco 42% maior de COVID persistente, mesmo quando o fator trabalho noturno era considerado separadamente.

Mas o dado mais expressivo apareceu quando as duas condições estavam presentes ao mesmo tempo.

Pessoas que trabalhavam à noite e também tinham insônia apresentaram um risco 2,7 vezes maior de desenvolver COVID persistente em comparação com participantes que trabalhavam durante o dia e não sofriam de insônia crônica.

A associação também apareceu entre pessoas que já haviam trabalhado em turnos noturnos anteriormente. Isso levantou uma possibilidade interessante: alterações prolongadas nos ritmos circadianos talvez deixem efeitos que não desaparecem imediatamente quando a pessoa volta a uma rotina diurna.

Ainda assim, é importante não transformar essa associação em uma relação de causa e efeito.

O estudo é observacional. Ele mostra que determinados fatores aparecem relacionados, mas não consegue provar que trabalhar à noite ou ter insônia provoque diretamente o COVID persistente.

O relógio biológico pode ser uma peça escondida

O interesse dos pesquisadores está justamente no funcionamento do sistema circadiano.

Nosso relógio interno não serve apenas para avisar quando é hora de dormir. Ele participa da regulação de hormônios, metabolismo e respostas do sistema imunológico ao longo do dia.

Uma alteração frequente desses ciclos poderia, em teoria, interferir na maneira como o organismo reage a uma infecção e controla a inflamação durante o período de recuperação.

Esse mecanismo, porém, ainda precisa ser demonstrado.

O estudo não significa que trabalhadores noturnos necessariamente terão COVID persistente, nem que mudar o horário de trabalho ou melhorar o sono seja suficiente para evitar a doença.

O que a pesquisa oferece é uma nova pista para entender por que algumas pessoas continuam apresentando sintomas muito depois de a infecção inicial desaparecer.

A recuperação pode depender de muito mais do que simplesmente eliminar o vírus. Características individuais, vacinação, condições de saúde, sono e possivelmente o funcionamento do relógio biológico podem fazer parte de uma equação ainda incompleta.

Para quem trabalha enquanto a maior parte da cidade dorme, a descoberta acrescenta uma pergunta importante à discussão sobre saúde ocupacional: será que o horário em que vivemos também influencia a maneira como nosso corpo consegue se recuperar?

A resposta ainda não está fechada. Mas os resultados indicam que, para compreender completamente o COVID persistente, talvez seja necessário olhar também para algo que acompanha todos nós, todos os dias: o nosso próprio relógio interno.

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