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Ciência

A descoberta que explica por que o corpo não se destrói — e como isso pode revolucionar o tratamento de doenças autoimunes e câncer

Cientistas premiados com o Nobel de Medicina de 2025 identificaram as células que impedem o corpo de atacar a si mesmo. O achado abre caminho para novos tratamentos contra doenças autoimunes, câncer e rejeição de transplantes — e ajuda a entender por que o equilíbrio do sistema imunológico é tão frágil quanto vital.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O sistema imunológico é uma das máquinas mais precisas da natureza — mas quando falha, pode transformar-se em inimigo. O grande enigma sempre foi entender como o corpo distingue o que deve ou não atacar. A resposta, revelada pelos vencedores do Nobel de Medicina de 2025, está em um grupo de células que funcionam como freios invisíveis da imunidade e que podem mudar o futuro da medicina.

As células que colocam limites ao sistema imunológico

Coração Das Células
© FreePik

Os pesquisadores descobriram um tipo especial de linfócito, batizado de linfócito T regulador, ou Treg, responsável por impedir que o sistema imunológico ataque os próprios tecidos do corpo.

Essas células atuam como moderadoras: quando o sistema imunológico fica prestes a reagir de forma exagerada, os Treg entram em ação, liberando substâncias que inibem a atividade dos linfócitos agressivos. É o que mantém o delicado equilíbrio entre defesa e destruição.

“O papel dessas células é garantir que o sistema imunológico não ataque o que deve proteger”, explica o imunologista Jonathan Fisher, da University College London.

Uma história que começou no Japão

O japonês Shimon Sakaguchi foi o primeiro a identificar a existência dos Treg na década de 1990. Anos depois, os americanos Mary Brunkow e Fred Ramsdell desvendaram sua base genética, demonstrando que sua formação ocorre no timo — o órgão responsável por “educar” as células imunológicas.

Ali, os Treg aprendem a distinguir entre o próprio organismo e os invasores externos. Se essa etapa falha, o corpo pode acabar confundindo inimigos com aliados e iniciar ataques autodestrutivos.

O elo perdido das doenças autoimunes

A descoberta dos linfócitos reguladores é decisiva para entender doenças como lúpus, artrite reumatoide e esclerose múltipla, nas quais o sistema imunológico se volta contra o próprio corpo.

Estudos mostram que pacientes com esclerose múltipla, por exemplo, apresentam falhas ou deficiência nessas células, o que agrava a inflamação e a destruição neuronal.

Mas o equilíbrio é delicado: enquanto a falta de Treg provoca autoimunidade, o excesso pode ter o efeito oposto — bloquear a defesa contra vírus e células cancerosas.

Quando a imunidade protege o inimigo

Em diversos tipos de câncer, os tumores conseguem manipular o sistema imunológico para produzir mais células Treg, que acabam silenciando a resposta de defesa do próprio organismo.

Esse mesmo mecanismo pode explicar por que alguns pacientes desenvolvem covid prolongada, embora os cientistas ainda não tenham provas conclusivas.

Além disso, nos transplantes de órgãos, as células Treg exercem um papel essencial ao reduzir o risco de rejeição — transformando-se em aliadas dos médicos e pacientes.

O próximo passo: controlar os freios da imunidade

Com o avanço das pesquisas, laboratórios em todo o mundo tentam desenvolver terapias capazes de modular os linfócitos T reguladores — estimulando sua ação em doenças autoimunes ou inibindo-a no tratamento do câncer.

No lúpus, por exemplo, há ensaios clínicos que testam maneiras de aumentar o número ou a atividade dos Treg. Já na oncologia, os esforços se concentram em bloquear o efeito “protetor” que essas células oferecem aos tumores.

Mesmo assim, os especialistas pedem cautela. “Entender o sistema imunológico é uma coisa; transformar esse conhecimento em um medicamento seguro e eficaz é outra bem diferente”, resume Fisher.

Um novo mapa da imunidade humana

O Nobel de 2025 reconhece mais do que uma descoberta biológica: marca um novo capítulo na compreensão de como o corpo se defende — e, sobretudo, de como evita se autodestruir.

Compreender e manipular esse equilíbrio pode mudar radicalmente o tratamento de dezenas de doenças. Afinal, às vezes, o segredo para curar está justamente em saber quando o corpo precisa parar de lutar.

 

[ Fonte: DW ]

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