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Ciência

Satélite europeu revela dezenas de lagos sob quilômetros de gelo na Antártida

Satélites detectaram dezenas de estruturas ocultas sob quilômetros de gelo na Antártida. O achado revela um continente muito mais ativo, complexo e imprevisível do que os cientistas imaginavam.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, a Antártida foi vista como uma massa praticamente imóvel de gelo eterno. Um lugar extremo, silencioso e aparentemente congelado no tempo. Mas essa imagem começa a mudar rapidamente. Novos dados obtidos do espaço revelaram que, abaixo da superfície branca e aparentemente estática, existe um sistema oculto em constante transformação. E o que os pesquisadores encontraram pode alterar profundamente a forma como entendemos o futuro do planeta.

A superfície da Antártida estava revelando um segredo escondido há milhares de anos

A descoberta começou com algo quase imperceptível. Pequenas deformações na superfície do gelo, medidas em escala milimétrica, chamaram a atenção de cientistas que analisavam dados do satélite CryoSat, da Agência Espacial Europeia (ESA).

O que parecia apenas uma leve alteração no relevo acabou revelando algo muito maior: dezenas de estruturas subterrâneas completamente ocultas sob quilômetros de gelo antártico.

O estudo, publicado recentemente na revista científica Nature Communications, identificou 85 novos lagos subglaciais ativos, elevando o número total de reservatórios conhecidos sob a Antártida para 231.

E o mais impressionante é que esses lagos não estão congelados.

Eles permanecem líquidos e conectados por rotas subterrâneas invisíveis, formando sistemas hidrológicos gigantescos que se movimentam lentamente sob o continente mais frio da Terra.

A chave da descoberta está na tecnologia do CryoSat. O satélite consegue medir alterações minúsculas na altura da superfície gelada usando radar altimétrico de alta precisão. Quando um lago subterrâneo acumula água, o gelo acima dele se eleva discretamente. Quando a água escoa, a superfície afunda.

Ao acompanhar essas mudanças ao longo de anos, os pesquisadores conseguiram reconstruir um verdadeiro mapa oculto abaixo da Antártida.

E isso mudou completamente a percepção sobre o continente.

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© Nature Communications

Debaixo do gelo existe uma rede gigantesca de água em movimento

O estudo revelou algo ainda mais intrigante: os lagos subterrâneos não funcionam de maneira isolada.

Os cientistas identificaram cinco grandes redes conectadas, mostrando que a água circula continuamente entre diferentes regiões escondidas sob o gelo. Em alguns casos, esses ciclos de enchimento e drenagem podem durar meses ou até anos inteiros.

Até pouco tempo atrás, os pesquisadores tinham conseguido documentar apenas 36 eventos completos desse tipo em toda a Antártida. Agora, graças aos novos dados obtidos pela ESA, esse número subiu para 48.

Isso significa que o continente é muito mais dinâmico do que parecia.

Segundo a pesquisadora Sally Wilson, da Universidade de Leeds, acompanhar esses processos sempre foi extremamente difícil porque tudo acontece centenas ou milhares de metros abaixo da superfície congelada.

E existe um detalhe importante: essa água não é apenas uma curiosidade geológica.

Ela pode influenciar diretamente o comportamento dos glaciares antárticos.

Quando a água líquida se acumula sob enormes massas de gelo, ela reduz o atrito entre o glaciar e a rocha abaixo dele. Na prática, funciona quase como um lubrificante natural, permitindo que partes da camada de gelo deslizem mais rapidamente em direção ao oceano.

E isso pode acelerar o aumento do nível do mar nas próximas décadas.

O que parecia um continente imóvel agora parece um sistema vivo

Durante muito tempo, a imagem popular da Antártida era simples: um bloco gigantesco de gelo praticamente parado no extremo sul do planeta.

Mas os novos dados mostram outra realidade.

Debaixo da superfície existe um ambiente ativo, mutável e surpreendentemente complexo. Lagos aparecem e desaparecem lentamente. Correntes subterrâneas conectam regiões inteiras. Algumas áreas do gelo literalmente flutuam sobre enormes depósitos líquidos invisíveis aos olhos humanos.

E talvez o aspecto mais fascinante da descoberta seja a maneira como ela foi feita.

Os cientistas não precisaram perfurar quilômetros de gelo para encontrar essas estruturas. Bastou observar pequenas deformações na superfície vistas do espaço. Como se a própria Antártida estivesse enviando sinais discretos sobre o que acontece em suas profundezas.

Agora, os pesquisadores acreditam que o continente ainda guarda muitos outros sistemas ocultos esperando para serem descobertos.

E isso levanta uma pergunta inquietante.

Se já existem 231 lagos subglaciais ativos conhecidos sob a Antártida… quantos outros ainda permanecem escondidos sob o gelo sem que ninguém tenha percebido?

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