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Ciência

A dopamina pode fazer o tempo parecer maior do que realmente foi, e um novo estudo revela como o cérebro reorganiza nossas memórias

Muito além da sensação de prazer e recompensa, a dopamina pode desempenhar um papel decisivo na forma como organizamos nossas lembranças. Pesquisadores descobriram que esse neurotransmissor ajuda o cérebro a separar experiências em eventos distintos, alterando a percepção do tempo entre elas e oferecendo uma nova perspectiva sobre o funcionamento da memória humana.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando pensamos em dopamina, normalmente ela é associada à felicidade, motivação ou ao famoso “hormônio do prazer”. No entanto, a ciência vem mostrando que sua atuação é muito mais complexa. Um novo estudo realizado por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) indica que esse neurotransmissor também influencia a maneira como percebemos o tempo e organizamos nossas memórias.

Os resultados sugerem que a dopamina pode ajudar o cérebro a criar “fronteiras” entre diferentes acontecimentos, fazendo com que episódios ocorridos em sequência pareçam mais distantes uns dos outros quando são lembrados.

Muito além da recompensa

A dopamina é um neurotransmissor produzido naturalmente pelo cérebro em regiões como a área tegmental ventral e a substância negra. Ela participa de funções essenciais, incluindo o controle dos movimentos, o aprendizado, a tomada de decisões e a percepção de recompensas.

Durante muitos anos, seu papel foi associado principalmente aos mecanismos de prazer e motivação. Sempre que uma ação produz um resultado positivo, a liberação de dopamina fortalece as conexões cerebrais envolvidas, aumentando a probabilidade de repetirmos aquele comportamento.

Mas pesquisas recentes vêm ampliando essa visão. Os cientistas descobriram que a dopamina também responde de forma intensa à novidade e às mudanças do ambiente, sugerindo uma participação importante na organização das experiências vividas.

Como o cérebro separa um acontecimento do outro

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© Unsplash

O novo estudo, publicado na revista Nature Communications, investigou justamente essa função menos conhecida da dopamina.

Segundo os pesquisadores da UCLA, a ativação do sistema dopaminérgico parece ocorrer no início de novos eventos, ajudando o cérebro a dividir uma sequência contínua de experiências em diferentes episódios de memória.

A principal autora do trabalho, Erin Morrow, doutoranda em Psicologia na universidade, explica que o sistema de dopamina não reage apenas às recompensas.

De acordo com ela, o cérebro também utiliza esse mecanismo para identificar novidades e mudanças de contexto, criando uma espécie de marcação que facilita a separação entre acontecimentos distintos quando eles são armazenados na memória.

Um experimento para medir a percepção do tempo

Para investigar essa hipótese, a equipe realizou um experimento com 32 voluntários.

Enquanto permaneciam dentro de um aparelho de ressonância magnética funcional, os participantes observavam imagens de objetos neutros ao mesmo tempo em que ouviam sons apresentados alternadamente no ouvido direito ou esquerdo.

Durante oito imagens consecutivas, o padrão sonoro permanecia igual, criando um contexto estável. Em seguida, o tom mudava de frequência e de lado, sinalizando o início de um novo evento.

Esse processo foi repetido várias vezes ao longo da experiência.

Posteriormente, os pesquisadores mostraram pares de imagens e pediram que os participantes estimassem quão distantes elas haviam aparecido no tempo.

Embora todos os pares estivessem separados exatamente pelo mesmo intervalo — três imagens intermediárias, equivalentes a cerca de 32,5 segundos —, aqueles que atravessavam uma mudança de contexto foram lembrados como se tivessem ocorrido muito mais distantes entre si.

A dopamina parece reorganizar as lembranças

As imagens de ressonância mostraram que as mudanças de contexto provocavam uma ativação significativamente maior da área tegmental ventral, uma das principais regiões produtoras de dopamina.

Além disso, quanto mais intensa era essa ativação, maior era a sensação de distância temporal relatada pelos participantes.

Para David Clewett, professor de Psicologia da UCLA e um dos autores do estudo, o cérebro não registra o tempo como um relógio.

Segundo ele, a memória insere pequenas “lacunas” entre acontecimentos consecutivos, permitindo diferenciá-los com mais facilidade durante a recordação. Em vez de simplesmente armazenar uma sequência contínua de fatos, o cérebro reorganiza essas experiências em episódios distintos.

O que o estudo ainda não pode afirmar

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© sfam_photo via Shutterstock

Apesar dos resultados promissores, os próprios pesquisadores fazem algumas ressalvas.

A pesquisa identificou uma associação entre a atividade do sistema dopaminérgico e a percepção do tempo, mas não demonstra uma relação direta de causa e efeito. Além disso, a ressonância magnética funcional mede alterações na atividade cerebral, e não a liberação de dopamina propriamente dita.

Os cientistas também investigaram se outros sistemas neurológicos poderiam explicar os resultados, como o circuito relacionado à noradrenalina, mas essa questão permanece em aberto.

Mesmo assim, o trabalho oferece uma nova interpretação sobre o funcionamento da memória humana. Em vez de apenas registrar os acontecimentos, o cérebro parece reorganizar continuamente a distância entre eles, tornando certas experiências mais separadas do que realmente foram. Se estudos futuros confirmarem esse mecanismo, a dopamina poderá ser reconhecida não apenas como um neurotransmissor ligado ao prazer, mas também como uma das peças centrais na forma como construímos nossa percepção do tempo.

 

[ Fonte: Infobae ]

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