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Tecnologia

O estranho destino de 2.700 computadores da Apple que ainda poderiam estar funcionando

Milhares de computadores que pareciam condenados ao esquecimento ganharam uma segunda chance. Então, quando ainda havia unidades disponíveis, uma decisão inesperada mudou tudo.
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Tempo de leitura: 3 minutos

No início dos anos 1980, a Apple apresentou um computador que parecia antecipar o futuro: interface gráfica, janelas, ícones e mouse. Mas havia um problema gigantesco escondido naquela inovação: o preço. O projeto fracassou comercialmente e deixou a empresa com milhares de máquinas encalhadas. Anos depois, um comerciante decidiu apostar justamente nesse estoque rejeitado e conseguiu transformar um dos maiores fracassos da Apple em um negócio curioso.

O computador que chegou cedo demais

Lançado em 1983, o Apple Lisa estava muito à frente de grande parte dos computadores disponíveis naquele momento. A máquina utilizava uma interface gráfica baseada em janelas e ícones e podia ser controlada com um mouse — recursos que hoje parecem banais, mas eram revolucionários naquela época.

O problema estava no preço. A Lisa chegou às lojas por US$ 9.995, valor que corresponderia a aproximadamente US$ 30 mil atualmente. Para consumidores domésticos e pequenas empresas, era praticamente proibitivo.

A situação ficou ainda mais complicada quando a Apple apresentou, no ano seguinte, o Macintosh por US$ 2.495. Ele oferecia uma experiência semelhante por apenas uma fração do preço.

A Lisa perdeu espaço rapidamente. A Apple ficou com milhares de unidades acumuladas em seus depósitos, transformando uma tecnologia avançada em um enorme problema de estoque.

Foi então que surgiu uma oportunidade improvável em Utah.

O comerciante que decidiu dar uma segunda chance à Lisa

Robert Bob Cook, fundador da Sun Remarketing, percebeu que aquelas máquinas ainda poderiam ter algum valor. A partir de 1985, sua empresa adquiriu ou recebeu em consignação entre 5 mil e 7 mil unidades da Lisa, além de milhares de computadores Apple III que também haviam sido descontinuados.

Em vez de simplesmente revendê-las como estavam, a Sun Remarketing modernizou os equipamentos. As máquinas receberam, entre outras melhorias, unidades de armazenamento com maior capacidade.

A estratégia funcionou.

Cook passou a vender os computadores como Lisa Professional, encontrando compradores para uma máquina que a própria Apple já considerava um fracasso comercial.

Durante alguns anos, o negócio conseguiu prolongar a vida de um produto que parecia condenado. O que havia sido um estoque problemático transformou-se em uma oportunidade comercial.

Mas, em 1989, quando ainda restavam milhares de unidades, aconteceu algo que ninguém esperava.

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© Load It Up Dumpster Rental, LLC – Unsplash

O destino surpreendente das 2.700 máquinas restantes

Em setembro daquele ano, a Apple exigiu que Cook devolvesse todas as unidades da Lisa que ainda estavam sob consignação na Sun Remarketing. Eram aproximadamente 2.700 computadores.

Não houve uma longa negociação pública nem uma explicação detalhada sobre a decisão. A empresa simplesmente recuperou o estoque.

O destino das máquinas foi ainda mais impressionante.

Caminhões contratados pela Apple levaram os computadores até o aterro municipal de Logan, em Utah. Mais de 20 caminhões foram utilizados na operação, enquanto seguranças acompanhavam o procedimento.

As máquinas foram então enterradas e esmagadas por equipamentos pesados.

Computadores que poucos anos antes representavam uma das grandes apostas tecnológicas da Apple acabaram tratados como entulho.

A explicação oficial estava relacionada aos números da empresa. Com o encerramento do ano fiscal se aproximando, manter aquele estoque nos registros contábeis deixava de fazer sentido. Destruir os equipamentos permitia registrar a perda de acordo com as regras tributárias vigentes naquele período.

Por que a Apple preferiu destruir máquinas que ainda funcionavam?

A justificativa contábil não encerrou a discussão.

Uma hipótese levantada posteriormente é que a Apple também tivesse interesse em impedir que milhares de computadores baratos e modernizados continuassem circulando no mercado. Afinal, uma Lisa vendida por um preço muito inferior poderia competir indiretamente com os produtos mais novos da companhia, especialmente o Macintosh.

Naquele momento, preservar o valor comercial da marca e dos produtos atuais era uma preocupação importante.

O episódio também revela como a indústria de tecnologia tratava equipamentos antigos antes de o lixo eletrônico se tornar uma questão ambiental tão evidente. Hoje, destruir milhares de computadores funcionais parece uma decisão difícil de imaginar. Em 1989, porém, a lógica empresarial e contábil podia pesar mais do que a preservação daquele hardware.

A história da Lisa acabou ganhando uma espécie de segunda vida justamente por causa de seu destino incomum.

Um computador que havia fracassado nas lojas foi recuperado por um comerciante, modernizado e vendido durante anos. Quando ainda havia milhares de unidades disponíveis, porém, a Apple decidiu encerrar definitivamente aquele capítulo.

No fim, o caso ficou marcado como um dos exemplos mais curiosos de uma empresa destruindo deliberadamente uma enorme quantidade de tecnologia ainda funcional — não porque ela fosse inútil, mas porque, naquele momento, mantê-la disponível poderia valer menos do que simplesmente fazê-la desaparecer.

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