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Ciência

A expansão do universo pode estar desacelerando: um novo debate que pode mudar o destino cósmico

Durante mais de duas décadas, acreditou-se que o universo se expandia cada vez mais rápido, impulsionado por uma misteriosa “energia escura”. Porém, um estudo recente da Universidade Yonsei, na Coreia do Sul, sugere que essa conclusão pode estar errada — e que o cosmos pode ter entrado, silenciosamente, em uma fase de desaceleração.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A história da expansão do universo é, ao mesmo tempo, uma história de descobertas observacionais e interpretações ousadas. Desde o final dos anos 1990, medições realizadas com supernovas do tipo Ia — explosões estelares usadas como marcadores de distância — indicaram que o universo não apenas estava se expandindo, como fazia isso de forma acelerada. Esse resultado deu origem ao conceito de energia escura, uma força invisível e hipotética que empurraria o tecido do espaço para fora. A ideia foi tão transformadora que rendeu o Prêmio Nobel de Física em 2011.

Mas a cosmologia vive de revisões contínuas. E uma dessas revisões pode estar em andamento agora.

O que o novo estudo descobriu

O James Webb encontrou algo no limite do tempo: ninguém sabe se é uma galáxia, um buraco negro ou o eco mais antigo do universo
© Giuseppe Capriotti & Giovanni Gandolfi. NASA / ESA / CSA / JWST / CEERS (PI: Steven Finkelstein).

Pesquisadores da Universidade Yonsei analisaram novamente as supernovas tipo Ia e identificaram um possível fator que, até agora, não havia sido considerado com suficiente profundidade: a idade das estrelas que dão origem a essas explosões.

Segundo o professor Young-Wook Lee, autor principal do estudo publicado na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, supernovas mais jovens tendem a emitir menos luz, enquanto supernovas mais antigas brilham mais intensamente. Isso significa que, ao longo das últimas décadas, algumas medições de distância podem ter sido interpretadas como se o universo estivesse acelerando — quando, na verdade, as supernovas comparadas não eram equivalentes entre si.

Ao corrigir esse desvio, o comportamento da expansão cósmica deixou de coincidir com o modelo padrão ΛCDM (Lambda-CDM), que prevê aceleração constante, e passou a se alinhar com modelos mais recentes do consórcio DESI (Dark Energy Spectroscopic Instrument).

Uma expansão que muda de ritmo

Os resultados apontam para algo surpreendente: a expansão do universo pode estar desacelerando.

Em vez de continuar a se afastar de forma cada vez mais rápida, como se acreditava, o cosmos poderia ter chegado a um ponto de inflexão, no qual a aceleração diminui gradualmente.

Lee afirma que:

“Os dados corrigidos coincidem com previsões independentes do fundo cósmico de micro-ondas e das oscilações acústicas de bárions, embora esse cenário tenha recebido pouca atenção até agora.”

Isso coloca a energia escura sob questionamento direto. Se a desaceleração for confirmada, talvez o universo não precise dessa força misteriosa para explicar sua dinâmica — ou talvez a energia escura mude de intensidade ao longo do tempo, algo que algumas teorias já propunham.

O que acontece agora

Para confirmar a hipótese, os pesquisadores aguardam a entrada em operação plena do Observatório Vera C. Rubin, no Chile. Ele deverá detectar milhares de supernovas nos próximos anos, com precisão inédita na determinação da idade das estrelas que explodem.

Segundo Chul Chung, coautor do estudo:

“A idade estelar é a chave. Com ela, poderemos testar a cosmologia das supernovas de forma decisiva.”

Ou seja, estamos prestes a entrar em uma fase de verificação global desse possível novo modelo do cosmos.

Se o universo está desacelerando, o que isso significa?

Se a expansão estiver realmente desacelerando, algumas interpretações possíveis incluem:

  • A energia escura pode não existir da forma como imaginamos.

  • Ela pode variar com o tempo, tornando-se menos dominante.

  • A gravidade pode, muito lentamente, estar retomando o controle da dinâmica do cosmos.

Isso não significa que o universo vai “recolher-se” ou colapsar — ao menos, não com os dados atuais. Porém, significa que a história cósmica é mais complexa do que a narrativa aceita pelas últimas três décadas.

A cada nova supernova, a cada novo telescópio e a cada nova medida, o universo parece nos lembrar da mesma lição: ainda sabemos muito pouco sobre ele — e é justamente isso que torna sua investigação tão fascinante.

 

[ Fonte: Ámbito ]

 

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